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Quem é quem na briga do bar

Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Certa vez, fui detido por engano; à época, tinha dezesseis anos e morava na periferia de Taguatinga. Estava em um quiosque, tomando um refrigerante, quando um bêbado e um garçom saíram no tapa, com facas e tudo. Apartados os dois, o lugar esvaziou. Eu mesmo fui embora.

A polícia, porém, foi atrás do bêbado que, infelizmente, ia na mesma direção da minha casa. Detiveram-me; não resisti, mas levei um soco no abdômen assim mesmo. Fui levado de camburão à cela, onde fiquei até cerca de 1h30 da manhã. Quando me interrogaram, esclareci a situação e fui liberado. Tive de ir à pé até em casa, a uns três quilômetros. Para incrementar a aventura, tive de atravessar alguns mataguais bem hostis…

Hoje, moro na Asa Norte. Normalmente, encontro meus amigos em locais como o Mont Sion ou Água Doce. Felizmente, nesses lugares nunca ocorrem imbróglios como o que descrevi.

Mas… e se ocorresse?Racismo LLL

Pensei nisso ao ler isto aqui. Não é novidade que, mesmo após amplas melhoras, a sociedade brasileira é desigual. Também não se duvida muito que a repressão estatal foca nos menos favorecidos. Entretanto, o exemplo nunca foi tão claro. Estive dos dois lados da história e posso garantir: ser da classe social certa muda totalmente a maneira como se é tratado em sociedade.

Verdade seja dita, a situação é complicada. Primeiro, falo de uma conjectura: nunca vi uma briga no Mont Sion para dizer o que realmente aconteceria. Entretanto, o mais importante é que, ao contrário da confusão lá no Bico Doce, eu não teria medo da polícia. Por que não? O que mudou em mim – que em verdade era muito mais ortodoxo lá atrás – para que eu não precise mais tomar cuidado?

Uma mudança é: estou bem de vida. Praticamente não tenho patrimônio, mas meu padrão de vida é bem alto, comparado com o resto da população. Ao subir de classe, descobri vários códigos tácitos para transmitir a mensagem certa o policial.

Outra complexidade é que o Distrito Federal parece um paraíso de tolerância e igualdade quando comparado a outros lugares. Eu mesmo só sofri esse abuso, e nenhum outro. Ademais, as histórias de policiais “perseguindo” jovens de aparência abastada são comuns aqui, e as posso confirmar.

Entretanto, isso não é nem de longe sinal de tratamento igualitário. Primeiro, a maioria das ditas “perseguições” de ricos são apenas blitze; ademais, vários reclamões são pegos pelo bafômetro. Segundo, praticamente só pobres sofrem abuso policial: já vi bastante gente sendo detida sem motivo razoável em Taguatiga. Na Asa Norte, isto ocorre apenas a pessoas com roupas humildes. Testemunhei várias pessoas asperamente investigadas por terem sentado sob uma árvore para um lanche. O Distrito Federal não tem o conflito sangrento das favelas cariocas, e a impunidade dos ricos é, até onde vi, menor; o abuso, porém, ainda está reservado aos menos favorecidos.

Pois então, como escapei do abuso na maior parte das vezes lá atrás? Creio que sempre consegui transmitir os sinais corretos à época. Estudioso, pentecostal, “certinho” e não raro vestindo esporte fino ou roupa social, dificilmente seria o potencial bandido entre meus colegas com bermudas largas e camisetas dos Racionais MC. Se fui detido naquela noite, provavelmente foi por justamente não saber que sinais emitir naquele contexto, que nunca me ocorrera.

Será, então, que minha detenção foi justa? Ou, ao menos, plausível? cheguei a pensar. Afinal, eu “dei bobeira” e “estava no lugar errado”. Talvez; mas por que não seria justa ou plausível agora, que vou ao Água Doce? Se explodisse a confusão hoje, eu seria tão inocente quanto há anos atrás. Parece-me estranho que, por “ter dado bobeira”, ou “por estar no ‘lugar errado’” – isto é, transmitir o sinal errado – eu fosse culpado, mesmo que “só um pouquinho”. Do mesmo modo, me incomoda que meu colega taguatinguense esteja “um pouquinho errado” por usar a roupa que quiser.

Sei que sou favorecido por essa estrutura injusta. Tenho grande qualidade de vida. Sou tão colossalmente privilegiado que me formei em universidade pública. Pago bastante impostos, dizem – mas isso não prejudica meu padrão de vida. Agora, meu favorecimento ficou ainda mais claro: sou indubitavelmente um membro da elite* social brasileira. Mesmo sendo o mais pobre dos meus amigos, mesmo sem praticamente nenhum “alto contato”, sou elite, com seus problemas e suas responsabilidades.

Mas isto eu vou ter de deixar para outro post. Até mais!

* As pessoas têm medo do rótulo “elite”. Para mim, ser da elite é algo bom e desejável, que merece ser incentivado. Isso por si só merece um post. Só quis esclarecer que não estou usando o termpo pejorativamente.

Racismo no LLL

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Racismo LLLA série sobre raça apresentanda por Alex Castro (o autor desse e desse livro) está ótima. Nela, disserta-se sobre o racismo no Brasil. Tenho aprendido muito, e creio que você também aprenderia.

Não se deixe assustar pelo tema: aproveite a oportunidade para refletir. Tampouco espere doutrinação: o debate está rico e diverso, e os comentários – incluindo os discordantes – são parte importante da série.

Aliás, não é preciso mudar de ideias para aproveitar os posts. Eu, por exemplo, discordo da maior parte das “soluções” propostas pelo autor. Mesmo assim, compreendo, graças à série, bem mais sobre o racismo no Brasil. E, sim, o Brasil é um país racista.

Praticamente não comento lá: falta-me base e ganho mais lendo os textos. Espero ter tempo e energia para escrever algo relevante sobre o assunto em breve, porém.

Enfim, espero você lá. O tema pode ser diferente, mas o Liberal, Libertário, Libertino continua nos mostrando horizontes surpreendentes.

O circo das ideias

Domingo, 13 de Setembro de 2009

Quando vejo debates, me assusto.

Não tenho mais paciência para defender ideias. Cada vez que uma minha opinião recebe uma crítica plausível, menos a aceito. Os debatedores defendem suas teses, mas, para mim, minhas teses devem se defender sozinhas. Nâo me identifico por minhas ideias e tento me desapegar das teorias às quais ainda tenha apreço.

Não sei se isso é bom, mas sei que traz paz de espírito. Talvez não seja a melhor das posturas…

Como tratar ideias

Como tratar ideias

…mas, enquanto penso sobre isto, assisto divertidamente ao circo das ideias.

James Harden-Hickey e a Ilha da Trindade

Sexta-Feira, 28 de Agosto de 2009

A Ilha de Trindade é uma pequena ilha vulcânica no Oceano Atlântico, a maior do arquipélago de Trindade e Martim Vaz. Território brasileiro, faz parte parte do município de Vitória, a capital do Espírito Santo. Embora não tenha habitantes permanentes, sedia o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, mantido pela Marinha do Brasil.

Além disso, a Ilha de Trindade foi o palco da maior cartada de James Harden-Hickey.

Fotografia da Ilha da Trindade

Fotografia da Ilha da Trindade

James Harden-Hickey foi um franco-estadunidense com gosto por aventura. Nascido em 1854, em São Francisco, Califórnia, mudou-se ainda criança para Paris. O ambiente esfuziante de Paris fascinou o jovem James, que adquiriu gosto pela pompa. Foi aluno dos jesuítas da Bélgica, estudou Direito na Universidade de Leipzig e formou-se, em 1875, na Academia Militar de Saint-Cyr. Alguns anos depois, casou-se com a Condessa de Saint-Pery, com quem teve duas crianças. Era um grande espadachim e escrevia romances.

Monarquista ardoroso, meteu-se em diversas confusões na França da Terceira República. Entre 1876 e 1880, já havia publicado mais de dez romances, todos monarquistas e antidemocráticos. Por seu apoio à Igreja, ganhou o título de barão do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1878, tornou-se editor do Triboulet, um popular jornal antirrepublicano que lhe rendeu vários duelos, processos e multas. Em 1887, porém, o jornal fecha, por falta de vrba.

Nessa época, James havia mudado. Divorciou-se da condessa, afastou-se do catolicismo e se dedicou ao budismo e à teosofia. Viajou pela Índia e Nepal, aprendeu sânscrito e se casou com uma filha de Henry Flagler, um dos donos da Standard Oil. Sua maior empreitada, porém, viria um pouco depois:

Em 1893, James Harden-Hickey decidiu se tornar James I, Príncipe de Trindade.

Harden-Hickey planejava colonizar a Ilha de Trindade e torná-la uma nação soberana. Trindade, a nação, seria uma ditadura militar governada por ele mesmo.  Em 1893, o jornal New York Tribune publicou uma reportagem de capa sobre o novo príncipe.

Bandeira do Principado de Trindade

Bandeira do Principado de Trindade

James seguia trabalhando: desenhou selos, uma bandeira e um brasão. Comprou uma escuna para trazer colonizadores. Abriu um escritório consular em Nova Iorque e até emitiu títulos de governo do novo estado.

Em 1895, porém, tropas inglesas tomaram a ilha. A Inglaterra planejava construir um cabo subterrâneo até o Brasil e usaria a ilha como posto. A ilha passou a ser disputada por Brasil e Inglaterra. James tentou ainda “lembrar” a todos de quem era o real soberano da ilha: seu secretário de Estado, Conde de la Boissiere, começou a agir. Entrou em contato com o secretário de Estado estadunidense, Richard Olney, a quem pediu o reconhecimento da soberania de Trindade. Olney então encaminhou a carta do conde aos jornais novaiorquinos, que se esbaldaram: o conde tornou-se motivo de piada.

Brasão de armas do Principado de Trindade

Brasão de armas do Principado de Trindade

Diz-se que Harden-Hickey ficou tão irritado que apresentou a seu sogro um plano para invadir a Inglaterra através da Irlanda. Obviamente, Flagler rejeitou a idéia. O “prícipe sem país” ainda tentou obter recuros vendendo um rancho que possuía, no México, mas não conseguiu angariar fundos suficientes.

No final, a Ilha de Trindade ficou sobre domínio do Brasil. James Harden-Hickey, defensor da eutanásia, entrou em depressão e, em 1898, cometeu suicídio em um hotel em El Paso, Texas, através de uma overdose de morfina. No seu espólio, havia uma carta de despedida para sua esposa e lembranças de suas aventuras, incluindo a coroa que havia encomendado.

James Harden-Hickey foi um desses personagens inacreditáveis, cuja história é intensa e tragicômica, bem ao estilo do século XIX. Se quiser saber mais sobre tal figura, veja este artigo.

Disciplina

Sexta-Feira, 21 de Agosto de 2009
Le Parkour

Passement

Sempre fui CDF. Adorava ler e estudar. Frequentemente, era rotulado como o melhor aluno da escola. Sempre fui excessivamente caxias, e já fui bastante religioso. As pessoas me viam como alguém disciplinado e esforçado; eu era um exemplo a ser seguido.

Na verdade, nunca fui disciplinado. Tinha – e ainda tenho – dificuldade de agir contra minha vontade. Felizmente, sempre gostei de estudar e trabalhar, e nunca fui desordeiro. Entretanto, eu era bom estudante pela mesma razão que os meus colegas eram bons futebolistas nas aulas de Educação Física. Se tinha de fazer algo que não me motivava, porém, não conseguia me concentrar e acabava procrastinando. Se eu conseguisse cumprir meu dever, o resultado do meu trabalho saía ruim e eu ficava muito desgastado.

Não fazia sentido: as pessoas responsáveis que eu conhecia, essas pessoas não sofriam tanto, e trabalhavam bem. Havia algo ali, além de esforço. E, ao menos em parte, descobri o que era:

Disciplina, mais que esforço, é costume. Uma pessoa disciplinada se esforça, sim, mas tanto quanto um jogador se esforça em uma pelada. A motivação da pessoa disciplinada é intrísceca: por mais desagradável que seja a tarefa, ela a executa – ou melhor, a termina – com prazer. Se o desafio não estiver na tarefa, estará no próprio ato de cumprir a tarefa.

Este gosto não surge do nada. A pessoa disciplinada treina-se, mesmo que inconscientemente. A cada pequeno compromisso atendido, essas pessoas se tornam um pouco mais disciplinadas. E a cada responsabilidade assumida, fica mais fácil atender à próxima que chega.

A disciplina, pessoas, é o parkour das responsabilidades.

On S’Embrasse?

Domingo, 16 de Novembro de 2008

On S’Embrasse? é um tragicômico curta-metragem que encontrei nessa manhã de domingo. Boa apreciação.

Está aqui. Via Dark Roasted Blend.

Radical Rebelde Revolucionário

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Eu li vários livros ótimos no final de 2007 e início de 2008. Um desses livros é Radical Rebelde Revolucionário.

Permitam-me apresentar Alex Castro. Alex Castro é um blogueiro bastante conhecido que aprecio muito. Seus textos são bastante divertidos mas provocam poderosas reflexões, além de serem muito claros. Gosto especialmente de suas idéias, liberais e libertárias em um nível que eu nem imaginava possível antes de conhecer o blogue dele.

Liberal Libertário Libertino

Liberal Libertário Libertino

Alex Castro tem três livros publicados. Desses, apenas Liberal Libertário Libertino foi impresso em papel. Provavelmente esse é seu melhor livro, pois, ao que parece, é uma coletânea mais bem trabalhada das crônicas que podem ser encontradas no site dele. Essas crônicas, assim como as prisões, são textos deliciosos de ler, cheios de humor e elegância. São, também, manifestações de idéias poderosas sobre liberdade, capazes mesmo de mudar vidas.

Entretanto, ainda não comprei Liberal Libertário Libertino porque priorizei os dois outros livros: Onde Perdemos Tudo e Radical Rebelde Revolucionário.

Onde Perdemos Tudo é uma coletânea de contos. Confesso que não gostei deste livro. Achei os contos fraquinhos e um tanto quanto pretensiosos, repetitivos e explícitos demais. Entretanto, talvez você queira dar uma chance ao livro: muita gente gostou dos contos, não seria justo confiar apenas no meu gosto. Confira os contos A Porta e A Morte do Meu Cachorro e tire suas conclusões. Dê uma olhada também em algumas resenhas.

Radical Rebelde Revolucionário é outra história. Esse insólito livro é o resultado de uma viagem de Alex Castro para Cuba. Ocorre que autor é, no momento, um mestrando na Tulane University em Nova Orleans, e sua pesquisa é sobre a escravidão na literatura latino-americana. Ele conseguiu financiamento para viajar para Cuba para aprofundar sua pesquisa. Ele foi lá, pesquisou, se divertiu pacas e, de quebra, escreveu o livro.

A primeira grande qualidade de Radical Rebelde Revolucionário é que não é um panfleto. Alex Castro é um livre pensador, e seu livro não é uma série de descrições e argumentos tentando provar que Cuba é um estado stalinista ou uma nação democrática. A Cuba de Alex Castro é humana, não ideológica. Ele não toma lado nenhum (embora ele pareça ter uma leve simpatia pelos socialistas) e observa não o ícone (do Mal ou do Bem), mas sim o país real, com seu povo, seus problemas e – por que não? – suas soluções.

Radical Rebelde Revolucionário

Radical Rebelde Revolucionário

Não bastasse ser um livro não dogmático, é uma delícia de ler. As crônicas são fluentes e muito, muito divertidas. As histórias sobre jineteiros, as peripécias do malandro Cándido, a sensualidade da bibliotecária Dolores, as descrições de tudo isso são de um humor único, quase escrachado mas extremamente realista.

Acima de tudo, Radical Rebelde Revolucionário é vivo. Lendo o livro, você quase pode vislumbrar os acontecimentos ocorrendo ali, na sua frente. Quando li a crônica que disserta, dentre outras coisas, sobre o caráter sorvetístico dos cubanos, tive de sair para comprar uma casquinha. Estou feliz por não ter me tornado fumante ao final do livro, como resultado da descrição fascinante e fascinada da indústria de charutos cubanos!

Vale destacar, porém, que o livro não foge de questões políticas, sociais e econômicas. A pobreza da ilha é bem retratada, a falta de democracia não é ignorada, problemas de abastecimento são uma constante e um lamento pela falta de dignidade da vida do cubano permeia a obra. Do mesmo modo, Alex Castro percebe em Cuba o resultado de uma revolução real, não a troca de uma elite por outra, e fascina-se com o exótico espetáculo de um país sem ricos nem miseráveis, mas só com pobres. Dada essas observações, não é de se admirar que o autor foi considerado castrista pelos anticastristas e anticastrista pelos castristas. Isso, por si só, já contaria muitos pontos para a obra.

De qualquer forma, ao menos para mim, o autor parece pouco interessado nas grandes questões políticas e sociais. Seu objetivo é entender os cubanos, seus hábitos, tradições, arte e cultura. E é isso que torna o livro inestimável: em uma zeitgeist onde Cuba é bandeira de praticamente qualquer movimento político, é reconfortante saber como são as pessoas reais desse país estranhíssimo.

Enfim, reitero minha sugestão: compre e leia o Radical Rebelde Revolucionário! Vai ser um dos melhores e mais agradáveis livros contemporâneos que você vai ler.

O valor subjetivo

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Eu me lembro da professora ensinando sobre o exemplo canônico de enganação do brasileiro: o escambo entre europeus e indígenas. Eu ficava chocado ao saber como os índios eram enganados pelos portugueses e afins, de modo a trabalharem duro para trocar produtos valiosos por objetos baratos e comuns.

Hoje, essa história já não faz tanto sentido. O português até poderia se achar espertíssimo nas trocas que fazia, mas o índio talvez pensasse a mesma coisa. O índio trocava pedras e tocos de madeira por itens sofisticados, como espelhos e pentes. Que ele ia fazer com madeira de pau-brasil? Talvez servisse de lenha…

Economistas reiteram que, em trocas voluntárias, ambas as partes saem ganhando. Se os autóctones brasileiros foram vítimas de chacinas, doenças importadas e descaracterização cultural, o escambo no Brasil Colônia talvez representasse o contrário disso: o europeu enriquecia e o índio se divertia com os gadgets recém-chegados. O prendedor de cabelo era o iPhone tupi do século XVI!

Na verdade, a professora esperava muito mais do índio. Para que entender o valor do pau-brasil, o índio teria de fazer roupas e querer tingi-las de vermelho; para que o ouro valesse algo, teria de fazer moedas e coroas. As matérias-primas do Brasil Colônia precisavam de processos de manufatura intrincados desconhecidos aos indígenas. Mais que isso: o valor que tais processos agregavam aos produtos era, geralmente, apenas significativo nas culturas européias. Em parte, a professora achava que o índio fora enganado porque olhara para ele com os valores europeus dela. O índio, porém, atribuía aos objetos o valor que ele poderia aproveitar.

O mais interessante dessa maneira de ver o escambo é o quão útil ela é para explicar algumas bizarrices que eu faço.

Por exemplo, não tenho interesse por cargos públicos. Abandonei um emprego público e não quero fazer concursos. Não sei como é em outros lugares, mas, em Brasília, se você faz isso, as pessoas começam a olhar para você como se você fosse um monge digambara. Eu, porém, sinto que tenho oportunidades ótimas fora do emprego público e, com minha pouca idade, muita disposição e poucos compromissos, estou no melhor momento para aproveitá-las.

Outro exemplo. Tenho um computador com processador AMD Duron 2 GHz com 128 MB de memória e disco rígido de 40 GB. É uma máquina bem limitada, mas tem me servido bem. Como trabalho com computação, sempre me perguntam como não faço logo um upgrade, mas tem valido mais a pena gastar dinheiro com geladeira e fogão – que são cruciais para quem mora sozinho – e me divertindo. Outros amigos me dizem que eu poderia parcelar o pagamento de um computador novo, mas um computador novo agora não vale mais para mim que o desconto que vou perder se pagar à vista.

Ambos são comportamentos estranhos para algumas pessoas que conheço. Parece a essas pessoas que estou trocando algo valioso (estabilidade, conforto, adiantamento de consumo) por coisas com pouco valor (desafio, aparelhos de cozinha e diversão, disciplina financeira). Só que eu sou um bom profissional de um setor em crescimento, então não corro tanto risco de ficar desempregado. Do mesmo modo, tenho uma máquina antiga e às vezes até irritante, mas plenamente funcional, e nem gosto tanto de computador assim. O que estão me oferecendo no lugar do que quero são benesses das quais já tenho o suficiente, ou algo próximo disso.

É certo que algum dia posso me tornar um servidor público ou financiar bens de consumo, e certamente vou comprar um computador novo. Alguém provavelmente me dirá algo como “A-há! Viu só? Eu estava certo o tempo todo!”

Prefiro tomar a melhor decisão disponível no momento. Sei que o que vou querer amanhã poderá ser diferente do que quero hoje. Eu posso vir a querer, no futuro, ter feito o que me sugerem, mas fazer o que quero é mais importante que fazer o que eu posso vir a querer ter feito. Já fiz muita coisa que não queria pensando que me daria um “futuro melhor”; hoje, me arrependo. Quando eu for colonizado, posso até querer o ouro… mas agora, não. Posso ou não me arrepender do que faço, mas certamente vou lembrar que fui feliz fazendo.

Não sei o que é melhor para mim, mas sei que eu quero o que é melhor para mim. Conselhos são bons, mas a decisão é sempre minha. Se, no final, eu me convencer que um espelho vale três pedrinhas… bem, parece estranho, mas em quem mais posso confiar?