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Racismo no LLL

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Racismo LLLA série sobre raça apresentanda por Alex Castro (o autor desse e desse livro) está ótima. Nela, disserta-se sobre o racismo no Brasil. Tenho aprendido muito, e creio que você também aprenderia.

Não se deixe assustar pelo tema: aproveite a oportunidade para refletir. Tampouco espere doutrinação: o debate está rico e diverso, e os comentários – incluindo os discordantes – são parte importante da série.

Aliás, não é preciso mudar de ideias para aproveitar os posts. Eu, por exemplo, discordo da maior parte das “soluções” propostas pelo autor. Mesmo assim, compreendo, graças à série, bem mais sobre o racismo no Brasil. E, sim, o Brasil é um país racista.

Praticamente não comento lá: falta-me base e ganho mais lendo os textos. Espero ter tempo e energia para escrever algo relevante sobre o assunto em breve, porém.

Enfim, espero você lá. O tema pode ser diferente, mas o Liberal, Libertário, Libertino continua nos mostrando horizontes surpreendentes.

Apocalypto

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Cartaz de Apocalypto

Cartaz de Apocalypto

Depois de anos sendo o cara esquisito das rodas de amigos, resolvi adotar hobbies menos exóticos: fui a uma locadora perto de casa e abri uma conta. Para estrear minha vida cinéfila, escolhi Apocalypto. Estava querendo ver o filme há um bom tempo – e minhas especitativas foram satisfeitas.

Apocalypto é um filme visual. As paisagens conseguiam transmitir todas as sensações: medo, coragem, destruição, manipulação. As cenas eram não só expressivas, mas também belíssimas e bem feitas. Algumas decisões polêmicas – como misturar aspectos culturais de diversas épocas da cultura maia – foram tomadas para deixar o filme mais exuberante; o objetivo foi alcançado.

O enredo não deve nada ao visual. A história do caçador perseguido pelos soldados do império é fascinante. O filme consegue prender a atenção. Felizmente, faz isso sem exageros: há muito drama e muita ação, mas não mais do que deveria haver. Quem tivesse assistido o ótimo The Passion of the Christ poderia esperar um filme muito carregado, mas não encontrará isso: o pesado drama foi uma ótima escolha em  The Passion of the Christ, mas Apocalypto é outra categoria de filme. Ademais, uma história sobre pré-colombianos dificilmente encontraria backgroud suficiente nos espectadores para emocioná-los tanto quanto a Paixão de Cristo poderia fazer. Se houvesse tanto drama, o filme seria apenas meloso, como são, por exemplo, os filmes de Spielberg.

Os personagens não deixam nada a desejar. Suas motivações, atos, opiniões são convincentes. O espectador sente empatia por eles. Como o filme não possui europeus, eles já não poderiam ser vilões esquemáticos (como temia-se). Os maias são antagonistas, mas definitivamente não são personagens superficiais: seus dramas, atos e opiniões também geram empatia.

Como em The Passion of the Christ, o aspecto mais ousado do filme é o idioma. Apocalypto é falado no dialeto iucateque de maia. A escolha foi muito boa: embora não se possa entender as falas, o idioma cria clima também. Não tive esta sensação (leia todo). Talvez porque tenha sido um filme feito por anglófonos: os atores pareciam falar maia com uma entonação inglesa. É verdade que a legenda distraía o espectador, que via menos dos cenários. Afora isso, porém, foi uma escolha interessante e ousada, e achei que deu certo.

Acredito, porém, que erraram um pouco a mão ao falar da religião maia. O filme deixa claro que a religião maia é um instrumento de controle do povo – especialmente dados os problemas que os maias estavam encarando e viriam a enfrentar. A tese em si, não me incomodou; pelo contrário, foi uma ideia boa. Entretanto, ficou explícito demais. Acredito que, se tivessem apresentado com sutileza, ficaria mais elegante.

O filme teve também suas polêmicas. Por exemplo, alguns historiadores afirmam que os maias não eram tão afeitos a sacrifícios humanos: este seria um aspecto da cultura asteca. Richard Hansen, o especialista que prestou consultoria à produção, responde que, durante o período, houve uma grande influência da cultura asteca sobre os maias. De qualquer forma, segundo alguns pesquisadores, os imolados eram geralmente membros da elite, não escravos – que, por sua vez, talvez não fossem tão comuns.

Houve quem visse no filme uma defesa da colonização espanhola. Segundo estes, o filme transmitiria a idéia de que os maias eram tão selvagens que precisavam do socorro europeu. Sinceramente, isto não faz sentido: em nenhum momento os europeus eram apresentados como salvadores. Pelo contrário: durante todo o filme, vê-se sinais claros de que uma maldição se aproximaria – e esta maldição eram os conquistadores.

Sumarizando, o filme é muito bom. Lamentavelmente, não o vi no cinema: um filme visualmente espetacular, como esse, merece ser visto na telona. Recomendo, porém, que ainda assim o assista: é um dos melhores filmes que já vi.

James Harden-Hickey e a Ilha da Trindade

Sexta-Feira, 28 de Agosto de 2009

A Ilha de Trindade é uma pequena ilha vulcânica no Oceano Atlântico, a maior do arquipélago de Trindade e Martim Vaz. Território brasileiro, faz parte parte do município de Vitória, a capital do Espírito Santo. Embora não tenha habitantes permanentes, sedia o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, mantido pela Marinha do Brasil.

Além disso, a Ilha de Trindade foi o palco da maior cartada de James Harden-Hickey.

Fotografia da Ilha da Trindade

Fotografia da Ilha da Trindade

James Harden-Hickey foi um franco-estadunidense com gosto por aventura. Nascido em 1854, em São Francisco, Califórnia, mudou-se ainda criança para Paris. O ambiente esfuziante de Paris fascinou o jovem James, que adquiriu gosto pela pompa. Foi aluno dos jesuítas da Bélgica, estudou Direito na Universidade de Leipzig e formou-se, em 1875, na Academia Militar de Saint-Cyr. Alguns anos depois, casou-se com a Condessa de Saint-Pery, com quem teve duas crianças. Era um grande espadachim e escrevia romances.

Monarquista ardoroso, meteu-se em diversas confusões na França da Terceira República. Entre 1876 e 1880, já havia publicado mais de dez romances, todos monarquistas e antidemocráticos. Por seu apoio à Igreja, ganhou o título de barão do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1878, tornou-se editor do Triboulet, um popular jornal antirrepublicano que lhe rendeu vários duelos, processos e multas. Em 1887, porém, o jornal fecha, por falta de vrba.

Nessa época, James havia mudado. Divorciou-se da condessa, afastou-se do catolicismo e se dedicou ao budismo e à teosofia. Viajou pela Índia e Nepal, aprendeu sânscrito e se casou com uma filha de Henry Flagler, um dos donos da Standard Oil. Sua maior empreitada, porém, viria um pouco depois:

Em 1893, James Harden-Hickey decidiu se tornar James I, Príncipe de Trindade.

Harden-Hickey planejava colonizar a Ilha de Trindade e torná-la uma nação soberana. Trindade, a nação, seria uma ditadura militar governada por ele mesmo.  Em 1893, o jornal New York Tribune publicou uma reportagem de capa sobre o novo príncipe.

Bandeira do Principado de Trindade

Bandeira do Principado de Trindade

James seguia trabalhando: desenhou selos, uma bandeira e um brasão. Comprou uma escuna para trazer colonizadores. Abriu um escritório consular em Nova Iorque e até emitiu títulos de governo do novo estado.

Em 1895, porém, tropas inglesas tomaram a ilha. A Inglaterra planejava construir um cabo subterrâneo até o Brasil e usaria a ilha como posto. A ilha passou a ser disputada por Brasil e Inglaterra. James tentou ainda “lembrar” a todos de quem era o real soberano da ilha: seu secretário de Estado, Conde de la Boissiere, começou a agir. Entrou em contato com o secretário de Estado estadunidense, Richard Olney, a quem pediu o reconhecimento da soberania de Trindade. Olney então encaminhou a carta do conde aos jornais novaiorquinos, que se esbaldaram: o conde tornou-se motivo de piada.

Brasão de armas do Principado de Trindade

Brasão de armas do Principado de Trindade

Diz-se que Harden-Hickey ficou tão irritado que apresentou a seu sogro um plano para invadir a Inglaterra através da Irlanda. Obviamente, Flagler rejeitou a idéia. O “prícipe sem país” ainda tentou obter recuros vendendo um rancho que possuía, no México, mas não conseguiu angariar fundos suficientes.

No final, a Ilha de Trindade ficou sobre domínio do Brasil. James Harden-Hickey, defensor da eutanásia, entrou em depressão e, em 1898, cometeu suicídio em um hotel em El Paso, Texas, através de uma overdose de morfina. No seu espólio, havia uma carta de despedida para sua esposa e lembranças de suas aventuras, incluindo a coroa que havia encomendado.

James Harden-Hickey foi um desses personagens inacreditáveis, cuja história é intensa e tragicômica, bem ao estilo do século XIX. Se quiser saber mais sobre tal figura, veja este artigo.

Garibaldi Alves Filho

Sexta-Feira, 14 de Agosto de 2009
Ok, não é um galã, mas até que parece gente fina

Não é um galã, mas é gente fina

José Sarney é o ícone da crise no Senado Federal. O que é natural: Sarney é patriarcal,  coronelista, símbolo do PMDBão e provavelmente tem o site mais feio da Internet em português. Até a revista The Economist lamentou quando ascendeu à presidência do Senado. Os escândalos de agora não são, portanto, nenhuma surpresa.

Entretanto, não estou aqui para falar de Sarney, mas de seu predecessor, Garibaldi Alves Filho.

Garibaldi Alves foi eleito em meio à confusão da renúncia de Renan Calheiros. A CartaCapital o classificou como um presidente “vai-tu-mesmo” que não incomodaria ninguém. Supus então que Garibaldi era só mais um político populista, um Joaquim Roriz com mais sorte.

Felizmente, estava enganado.

Não acompanhei o mandato do senador em detalhes, mas algo me chamou a atenção. Garibaldi Alves defendia a instituição do Senado Federal. Não o fez isso para se defender, como os cínicos; Garibaldi Alves o fez porque, aparentemente, acredita na importância da separação de poderes, da constitucionalidade e das instituições. Além disso, sua postura é sempre digna, suas palavras equilibradas e suas opiniões maduras e consistentes. Por fim, não foi pego envolvido em escândalos.

Parece que isto tudo passou desapercebido a maioria das pessoas. Devemos, porém, lembrar também de quem faz um bom trabalho.

Conheço pouco da obra de Garibaldi Alves. Pode até ser que ele seja um mau político – se for, gostaria de saber.  Porém, o pouco que conheço indica que é um homem sério, algo incomum entre os políticos em evidência. Se você é do Rio Grande do Norte, vote nele por mim.

Tajik Jimmy no mundo plano

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

O blog Net Effect, da Foreign Policy, é leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em Internet, comunicação, Web 2.0 e outros temas modernosos. Primeiro, porque Evgeny Morozov é um analista atento e sóbrio que foca sobre a real influência das novas tecnologias sobre povos e países. As análises dele têm uma consistência rara, ainda mais que são sobre temas que frequentemente levam ao messianismo yuppie.

Além disso, Net Effect apresenta históricas como a de Baimurat Allaberiyev, conhecido como Tajik Jimmy. Baimurat Allaberiyev é um tajique (etnicamente, um uzbeque) que emigrou para a Rússia para trabalhar na construção civil. Tornou-se uma celebridade após alguns vídeos seus caírem no YouTube. E por que esses vídeos o tornaram uma celebridade? Veja você mesmo!

As canções que Jimmy canta são de trilhas sonoras de filmes bollywoodianos, até onde averiguei.

Mesmo que ele não fosse tão bom, já seria no mínimo curioso um tajique uzbeque cantando músicas em hindi na Rússia! Que o mundo ficara plano, eu já sabia; a surpresa é que até o centro da Ásia, essa região nunca citada, ficou plana também.

Visite o post lá no Net Effect, que explica toda a situação.

Música marroquina anônima

Sexta-Feira, 6 de Fevereiro de 2009

Clicando nesse link, você ouvirá uma curiosa e agradável música instrumental marroquina. Não se sabe quem toca a música, tampouco se vendem CDs dessa música. Estranho, não é? Para saber mais, visite o Diário da África.

A propósito, é impressão minha ou essa música lembra algum estilo musical brasileiro, ao menos de leve? Estou com essa sensação…

Eleições Estadunidenses

Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Hoje é dia de eleição nos Estados Unidos.

A princípio, eu estava bem neutro. Obama tinha um discurso mais simpático e pacifista, mas McCain parecia bem mais experiente e favorável a latino-americanos, inclusive brasileiros. Depois que McCain escolheu Sarah Palin como sua vice-presidente, acabei preferindo mais Obama, embora eu ainda me sinta suspeitoso.

Hoje, provavelmente, Obama ganha. Isso seria bom por vários motivos: talvez os Estados Unidos se tornem menos belicosos, e, afinal, a alternância de poder é um bom valor. Provavelmente os Estados Unidos vão se tornar mais protecionistas, mas nada é perfeito. Se, como brasileiro, prefiro McCain, como estrangeiro e pacifista acho que Obama não seria má escolha, afinal.

No final, acho que tudo indica que, seja qual for o resultado, estaremos em um mundo melhor. McCain, felizmente, não é Bush, e se ganhar e fizer o favor de não morrer, poderia perfeitamente fazer um bom governo. Obama, por inexperiente que seja, traz novos ares, e parece favorecer mais o diálogo e menos a guerra; inclusive, propõe investir mais em problemas sérios, como a al-Qaeda no Afeganistão, ao invés de alimentar delírios, como atacar o Irã.

Bem, todos apostos? Peguem suas pipocas, assinem o feed do blog do Pedro Dória e se divirtam!

Radical Rebelde Revolucionário

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Eu li vários livros ótimos no final de 2007 e início de 2008. Um desses livros é Radical Rebelde Revolucionário.

Permitam-me apresentar Alex Castro. Alex Castro é um blogueiro bastante conhecido que aprecio muito. Seus textos são bastante divertidos mas provocam poderosas reflexões, além de serem muito claros. Gosto especialmente de suas idéias, liberais e libertárias em um nível que eu nem imaginava possível antes de conhecer o blogue dele.

Liberal Libertário Libertino

Liberal Libertário Libertino

Alex Castro tem três livros publicados. Desses, apenas Liberal Libertário Libertino foi impresso em papel. Provavelmente esse é seu melhor livro, pois, ao que parece, é uma coletânea mais bem trabalhada das crônicas que podem ser encontradas no site dele. Essas crônicas, assim como as prisões, são textos deliciosos de ler, cheios de humor e elegância. São, também, manifestações de idéias poderosas sobre liberdade, capazes mesmo de mudar vidas.

Entretanto, ainda não comprei Liberal Libertário Libertino porque priorizei os dois outros livros: Onde Perdemos Tudo e Radical Rebelde Revolucionário.

Onde Perdemos Tudo é uma coletânea de contos. Confesso que não gostei deste livro. Achei os contos fraquinhos e um tanto quanto pretensiosos, repetitivos e explícitos demais. Entretanto, talvez você queira dar uma chance ao livro: muita gente gostou dos contos, não seria justo confiar apenas no meu gosto. Confira os contos A Porta e A Morte do Meu Cachorro e tire suas conclusões. Dê uma olhada também em algumas resenhas.

Radical Rebelde Revolucionário é outra história. Esse insólito livro é o resultado de uma viagem de Alex Castro para Cuba. Ocorre que autor é, no momento, um mestrando na Tulane University em Nova Orleans, e sua pesquisa é sobre a escravidão na literatura latino-americana. Ele conseguiu financiamento para viajar para Cuba para aprofundar sua pesquisa. Ele foi lá, pesquisou, se divertiu pacas e, de quebra, escreveu o livro.

A primeira grande qualidade de Radical Rebelde Revolucionário é que não é um panfleto. Alex Castro é um livre pensador, e seu livro não é uma série de descrições e argumentos tentando provar que Cuba é um estado stalinista ou uma nação democrática. A Cuba de Alex Castro é humana, não ideológica. Ele não toma lado nenhum (embora ele pareça ter uma leve simpatia pelos socialistas) e observa não o ícone (do Mal ou do Bem), mas sim o país real, com seu povo, seus problemas e – por que não? – suas soluções.

Radical Rebelde Revolucionário

Radical Rebelde Revolucionário

Não bastasse ser um livro não dogmático, é uma delícia de ler. As crônicas são fluentes e muito, muito divertidas. As histórias sobre jineteiros, as peripécias do malandro Cándido, a sensualidade da bibliotecária Dolores, as descrições de tudo isso são de um humor único, quase escrachado mas extremamente realista.

Acima de tudo, Radical Rebelde Revolucionário é vivo. Lendo o livro, você quase pode vislumbrar os acontecimentos ocorrendo ali, na sua frente. Quando li a crônica que disserta, dentre outras coisas, sobre o caráter sorvetístico dos cubanos, tive de sair para comprar uma casquinha. Estou feliz por não ter me tornado fumante ao final do livro, como resultado da descrição fascinante e fascinada da indústria de charutos cubanos!

Vale destacar, porém, que o livro não foge de questões políticas, sociais e econômicas. A pobreza da ilha é bem retratada, a falta de democracia não é ignorada, problemas de abastecimento são uma constante e um lamento pela falta de dignidade da vida do cubano permeia a obra. Do mesmo modo, Alex Castro percebe em Cuba o resultado de uma revolução real, não a troca de uma elite por outra, e fascina-se com o exótico espetáculo de um país sem ricos nem miseráveis, mas só com pobres. Dada essas observações, não é de se admirar que o autor foi considerado castrista pelos anticastristas e anticastrista pelos castristas. Isso, por si só, já contaria muitos pontos para a obra.

De qualquer forma, ao menos para mim, o autor parece pouco interessado nas grandes questões políticas e sociais. Seu objetivo é entender os cubanos, seus hábitos, tradições, arte e cultura. E é isso que torna o livro inestimável: em uma zeitgeist onde Cuba é bandeira de praticamente qualquer movimento político, é reconfortante saber como são as pessoas reais desse país estranhíssimo.

Enfim, reitero minha sugestão: compre e leia o Radical Rebelde Revolucionário! Vai ser um dos melhores e mais agradáveis livros contemporâneos que você vai ler.

A Sereníssima República Modelo

Sábado, 27 de Outubro de 2007

Meus amigos falam muito sobre sair do Brasil. Consideram o país atrasado, mal administrado e sem perspectivas. Discordo de uns pontos, concordo com a maioria, mas nunca pensei em realmente me mudar do Brasil. Nunca me senti atraído por nenhuma nação a ponto de pensar em viver nela. Também não morro de amores pelo Brasil, mas a inércia me fez querer ficar aqui.

Recentemente, porém, descobri a Mais Serena República de São Marinho.

Forte de Guaita

Impressionate fotografia do Forte de Guaita.

São Marinho (ou também San Marino) é uma pequena república localizada nos Montes Apeninos. Foi fundada em 301 por Marinho, um cristão da Dalmácia, que fugia da perseguição romana. Essa comunidade era regida por um conselho semelhante ao Senado romano; desse modo, é considerada a mais antiga república moderna.

O que chama a atenção em San Marino é sua simplicidade. É a quinta menor nação do mundo em território, e sequer possui aeroporto ou litoral. O autódromo onde ocorria o Grande Prêmio de San Marino, na verdade, fica na Itália. A população total do país não chega a 30 mil pessoas. É como se fosse uma cidade do interior.

Ao contrário de outras micro-nações européias, como Mônaco e Liechtenstein, São Marinho não é um país ostensivamente rico. Enquanto essas outras nações são, geralmente, paraísos fiscais, o turismo é responsável por 50% do PIB de San Marino. Em verdade, até meados do século XX, San Marino era um país pobre. Seu território fica numa uma região que, durante muito tempo, foi isolada, e não é especialmente fértil. Isso provavelmente viabilizou sua longa independência.

A principal instituição política de San Marino é o Grande e Geral Conselho: um parlamento formado por sessenta membros eleitos a cada cinco anos. O Grande e Geral Conselho elege, dentre seus participantes, dez que comporão o Conselho de Estado, a instituição que exerce o Poder Executivo. O Grande e Geral Conselho também elege os dois capitães regentes que são os chefes de Estado. Geralmente, os capitães regentes são de partidos opostos, e têm mandato de seis meses. Após sua regência, os cidadãos têm três dias para entrar com processos contra o capitães regentes. Esse é o sistema de governo do país desde o século XIII. San Marino não é apenas a mais antiga república do mundo; também tem a mais antiga constituição ainda vigente, sendo promulgada a partir dos estatutos do século XV.

Conta-se que, quando Napoleão invadiu a Itália, perguntaram-no se tomaria São Marinho. Ele respondeu: “Por quê? É uma república modelo!” Garibaldi buscou refúgio em San Marino – e, como recompensa, San Marino manteve-se independente após a união da Itália. Na Segunda Guerra, o Eixo invadiu o país, e os Aliados o libertaram, saindo poucas semanas depois, como que dizendo que São Marinho não fazia parte da questão. É uma nação neutra, pacífica e respeitada. Para quem quer paz e sossego, é perfeita.

Ainda não sei como se faz para obter cidadania samarinesa. Descendentes de samarineses conseguem-na sem grandes complicações. Eu tenho ascendência italiana, então talvez possa me mudar para Rimini e vá almoçar na Sereníssima República :-)

Nota: San Marino não faz parte da União Européia, então visitar a Itália de lá não deve ser como pegar o Eurotúnel. De qualquer forma, transitar entre San Marino e Itália deve ser mais fácil do que entre quaisquer outros países, com exceção dos países da União Européia. Ademais, em San Marino aceita-se o Euro sem problemas.