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A maldição do soneto

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Desesperadamente, linha a linha,

escrevo os versos desse meu poema

tentando aliviar a dor mesquinha

que violentamente a mim se algema

pois cada verso é um guia que encaminha

um pouco dessa depressão extrema

ao mundo lá de fora e que da minha

cabeça tira um pouco do problema.

Verso a verso, eu expulso lentamente

dor, rancor, solidão, ódio, tristeza

da minha mente tristemente presa.

Mas de que vale, se da minha mente,

de tantos sofrimentos tão perversos,

só posso aliviar quatorze versos?

circa 2005

Esse é só um soneto que escrevi ha um bom tempo e, depois de uma “reforma”, ficou bom o suficiente para publicar. Não estou deprimido nem nada disso no momento :)

O valor subjetivo

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Eu me lembro da professora ensinando sobre o exemplo canônico de enganação do brasileiro: o escambo entre europeus e indígenas. Eu ficava chocado ao saber como os índios eram enganados pelos portugueses e afins, de modo a trabalharem duro para trocar produtos valiosos por objetos baratos e comuns.

Hoje, essa história já não faz tanto sentido. O português até poderia se achar espertíssimo nas trocas que fazia, mas o índio talvez pensasse a mesma coisa. O índio trocava pedras e tocos de madeira por itens sofisticados, como espelhos e pentes. Que ele ia fazer com madeira de pau-brasil? Talvez servisse de lenha…

Economistas reiteram que, em trocas voluntárias, ambas as partes saem ganhando. Se os autóctones brasileiros foram vítimas de chacinas, doenças importadas e descaracterização cultural, o escambo no Brasil Colônia talvez representasse o contrário disso: o europeu enriquecia e o índio se divertia com os gadgets recém-chegados. O prendedor de cabelo era o iPhone tupi do século XVI!

Na verdade, a professora esperava muito mais do índio. Para que entender o valor do pau-brasil, o índio teria de fazer roupas e querer tingi-las de vermelho; para que o ouro valesse algo, teria de fazer moedas e coroas. As matérias-primas do Brasil Colônia precisavam de processos de manufatura intrincados desconhecidos aos indígenas. Mais que isso: o valor que tais processos agregavam aos produtos era, geralmente, apenas significativo nas culturas européias. Em parte, a professora achava que o índio fora enganado porque olhara para ele com os valores europeus dela. O índio, porém, atribuía aos objetos o valor que ele poderia aproveitar.

O mais interessante dessa maneira de ver o escambo é o quão útil ela é para explicar algumas bizarrices que eu faço.

Por exemplo, não tenho interesse por cargos públicos. Abandonei um emprego público e não quero fazer concursos. Não sei como é em outros lugares, mas, em Brasília, se você faz isso, as pessoas começam a olhar para você como se você fosse um monge digambara. Eu, porém, sinto que tenho oportunidades ótimas fora do emprego público e, com minha pouca idade, muita disposição e poucos compromissos, estou no melhor momento para aproveitá-las.

Outro exemplo. Tenho um computador com processador AMD Duron 2 GHz com 128 MB de memória e disco rígido de 40 GB. É uma máquina bem limitada, mas tem me servido bem. Como trabalho com computação, sempre me perguntam como não faço logo um upgrade, mas tem valido mais a pena gastar dinheiro com geladeira e fogão - que são cruciais para quem mora sozinho - e me divertindo. Outros amigos me dizem que eu poderia parcelar o pagamento de um computador novo, mas um computador novo agora não vale mais para mim que o desconto que vou perder se pagar à vista.

Ambos são comportamentos estranhos para algumas pessoas que conheço. Parece a essas pessoas que estou trocando algo valioso (estabilidade, conforto, adiantamento de consumo) por coisas com pouco valor (desafio, aparelhos de cozinha e diversão, disciplina financeira). Só que eu sou um bom profissional de um setor em crescimento, então não corro tanto risco de ficar desempregado. Do mesmo modo, tenho uma máquina antiga e às vezes até irritante, mas plenamente funcional, e nem gosto tanto de computador assim. O que estão me oferecendo no lugar do que quero são benesses das quais já tenho o suficiente, ou algo próximo disso.

É certo que algum dia posso me tornar um servidor público ou financiar bens de consumo, e certamente vou comprar um computador novo. Alguém provavelmente me dirá algo como “A-há! Viu só? Eu estava certo o tempo todo!”

Prefiro tomar a melhor decisão disponível no momento. Sei que o que vou querer amanhã poderá ser diferente do que quero hoje. Eu posso vir a querer, no futuro, ter feito o que me sugerem, mas fazer o que quero é mais importante que fazer o que eu posso vir a querer ter feito. Já fiz muita coisa que não queria pensando que me daria um “futuro melhor”; hoje, me arrependo. Quando eu for colonizado, posso até querer o ouro… mas agora, não. Posso ou não me arrepender do que faço, mas certamente vou lembrar que fui feliz fazendo.

Não sei o que é melhor para mim, mas sei que eu quero o que é melhor para mim. Conselhos são bons, mas a decisão é sempre minha. Se, no final, eu me convencer que um espelho vale três pedrinhas… bem, parece estranho, mas em quem mais posso confiar?