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O valor subjetivo

terça-feira, 26 \26\UTC fevereiro \26\UTC 2008

Eu me lembro da professora ensinando sobre o exemplo canônico de enganação do brasileiro: o escambo entre europeus e indígenas. Eu ficava chocado ao saber como os índios eram enganados pelos portugueses e afins, de modo a trabalharem duro para trocar produtos valiosos por objetos baratos e comuns.

Hoje, essa história já não faz tanto sentido. O português até poderia se achar espertíssimo nas trocas que fazia, mas o índio talvez pensasse a mesma coisa. O índio trocava pedras e tocos de madeira por itens sofisticados, como espelhos e pentes. Que ele ia fazer com madeira de pau-brasil? Talvez servisse de lenha…

Economistas reiteram que, em trocas voluntárias, ambas as partes saem ganhando. Se os autóctones brasileiros foram vítimas de chacinas, doenças importadas e descaracterização cultural, o escambo no Brasil Colônia talvez representasse o contrário disso: o europeu enriquecia e o índio se divertia com os gadgets recém-chegados. O prendedor de cabelo era o iPhone tupi do século XVI!

Na verdade, a professora esperava muito mais do índio. Para que entender o valor do pau-brasil, o índio teria de fazer roupas e querer tingi-las de vermelho; para que o ouro valesse algo, teria de fazer moedas e coroas. As matérias-primas do Brasil Colônia precisavam de processos de manufatura intrincados desconhecidos aos indígenas. Mais que isso: o valor que tais processos agregavam aos produtos era, geralmente, apenas significativo nas culturas européias. Em parte, a professora achava que o índio fora enganado porque olhara para ele com os valores europeus dela. O índio, porém, atribuía aos objetos o valor que ele poderia aproveitar.

O mais interessante dessa maneira de ver o escambo é o quão útil ela é para explicar algumas bizarrices que eu faço.

Por exemplo, não tenho interesse por cargos públicos. Abandonei um emprego público e não quero fazer concursos. Não sei como é em outros lugares, mas, em Brasília, se você faz isso, as pessoas começam a olhar para você como se você fosse um monge digambara. Eu, porém, sinto que tenho oportunidades ótimas fora do emprego público e, com minha pouca idade, muita disposição e poucos compromissos, estou no melhor momento para aproveitá-las.

Outro exemplo. Tenho um computador com processador AMD Duron 2 GHz com 128 MB de memória e disco rígido de 40 GB. É uma máquina bem limitada, mas tem me servido bem. Como trabalho com computação, sempre me perguntam como não faço logo um upgrade, mas tem valido mais a pena gastar dinheiro com geladeira e fogão – que são cruciais para quem mora sozinho – e me divertindo. Outros amigos me dizem que eu poderia parcelar o pagamento de um computador novo, mas um computador novo agora não vale mais para mim que o desconto que vou perder se pagar à vista.

Ambos são comportamentos estranhos para algumas pessoas que conheço. Parece a essas pessoas que estou trocando algo valioso (estabilidade, conforto, adiantamento de consumo) por coisas com pouco valor (desafio, aparelhos de cozinha e diversão, disciplina financeira). Só que eu sou um bom profissional de um setor em crescimento, então não corro tanto risco de ficar desempregado. Do mesmo modo, tenho uma máquina antiga e às vezes até irritante, mas plenamente funcional, e nem gosto tanto de computador assim. O que estão me oferecendo no lugar do que quero são benesses das quais já tenho o suficiente, ou algo próximo disso.

É certo que algum dia posso me tornar um servidor público ou financiar bens de consumo, e certamente vou comprar um computador novo. Alguém provavelmente me dirá algo como “A-há! Viu só? Eu estava certo o tempo todo!”

Prefiro tomar a melhor decisão disponível no momento. Sei que o que vou querer amanhã poderá ser diferente do que quero hoje. Eu posso vir a querer, no futuro, ter feito o que me sugerem, mas fazer o que quero é mais importante que fazer o que eu posso vir a querer ter feito. Já fiz muita coisa que não queria pensando que me daria um “futuro melhor”; hoje, me arrependo. Quando eu for colonizado, posso até querer o ouro… mas agora, não. Posso ou não me arrepender do que faço, mas certamente vou lembrar que fui feliz fazendo.

Não sei o que é melhor para mim, mas sei que eu quero o que é melhor para mim. Conselhos são bons, mas a decisão é sempre minha. Se, no final, eu me convencer que um espelho vale três pedrinhas… bem, parece estranho, mas em quem mais posso confiar?


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