O valor subjetivo

Eu me lembro da professora ensinando sobre o exemplo canônico de enganação do brasileiro: o escambo entre europeus e indígenas. Eu ficava chocado ao saber como os índios eram enganados pelos portugueses e afins, de modo a trabalharem duro para trocar produtos valiosos por objetos baratos e comuns.

Hoje, essa história já não faz tanto sentido. O português até poderia se achar espertíssimo nas trocas que fazia, mas o índio talvez pensasse a mesma coisa. O índio trocava pedras e tocos de madeira por itens sofisticados, como espelhos e pentes. Que ele ia fazer com madeira de pau-brasil? Talvez servisse de lenha…

Economistas reiteram que, em trocas voluntárias, ambas as partes saem ganhando. Se os autóctones brasileiros foram vítimas de chacinas, doenças importadas e descaracterização cultural, o escambo no Brasil Colônia talvez representasse o contrário disso: o europeu enriquecia e o índio se divertia com os gadgets recém-chegados. O prendedor de cabelo era o iPhone tupi do século XVI!

Na verdade, a professora esperava muito mais do índio. Para que entender o valor do pau-brasil, o índio teria de fazer roupas e querer tingi-las de vermelho; para que o ouro valesse algo, teria de fazer moedas e coroas. As matérias-primas do Brasil Colônia precisavam de processos de manufatura intrincados desconhecidos aos indígenas. Mais que isso: o valor que tais processos agregavam aos produtos era, geralmente, apenas significativo nas culturas européias. Em parte, a professora achava que o índio fora enganado porque olhara para ele com os valores europeus dela. O índio, porém, atribuía aos objetos o valor que ele poderia aproveitar.

O mais interessante dessa maneira de ver o escambo é o quão útil ela é para explicar algumas bizarrices que eu faço.

Por exemplo, não tenho interesse por cargos públicos. Abandonei um emprego público e não quero fazer concursos. Não sei como é em outros lugares, mas, em Brasília, se você faz isso, as pessoas começam a olhar para você como se você fosse um monge digambara. Eu, porém, sinto que tenho oportunidades ótimas fora do emprego público e, com minha pouca idade, muita disposição e poucos compromissos, estou no melhor momento para aproveitá-las.

Outro exemplo. Tenho um computador com processador AMD Duron 2 GHz com 128 MB de memória e disco rígido de 40 GB. É uma máquina bem limitada, mas tem me servido bem. Como trabalho com computação, sempre me perguntam como não faço logo um upgrade, mas tem valido mais a pena gastar dinheiro com geladeira e fogão – que são cruciais para quem mora sozinho – e me divertindo. Outros amigos me dizem que eu poderia parcelar o pagamento de um computador novo, mas um computador novo agora não vale mais para mim que o desconto que vou perder se pagar à vista.

Ambos são comportamentos estranhos para algumas pessoas que conheço. Parece a essas pessoas que estou trocando algo valioso (estabilidade, conforto, adiantamento de consumo) por coisas com pouco valor (desafio, aparelhos de cozinha e diversão, disciplina financeira). Só que eu sou um bom profissional de um setor em crescimento, então não corro tanto risco de ficar desempregado. Do mesmo modo, tenho uma máquina antiga e às vezes até irritante, mas plenamente funcional, e nem gosto tanto de computador assim. O que estão me oferecendo no lugar do que quero são benesses das quais já tenho o suficiente, ou algo próximo disso.

É certo que algum dia posso me tornar um servidor público ou financiar bens de consumo, e certamente vou comprar um computador novo. Alguém provavelmente me dirá algo como “A-há! Viu só? Eu estava certo o tempo todo!”

Prefiro tomar a melhor decisão disponível no momento. Sei que o que vou querer amanhã poderá ser diferente do que quero hoje. Eu posso vir a querer, no futuro, ter feito o que me sugerem, mas fazer o que quero é mais importante que fazer o que eu posso vir a querer ter feito. Já fiz muita coisa que não queria pensando que me daria um “futuro melhor”; hoje, me arrependo. Quando eu for colonizado, posso até querer o ouro… mas agora, não. Posso ou não me arrepender do que faço, mas certamente vou lembrar que fui feliz fazendo.

Não sei o que é melhor para mim, mas sei que eu quero o que é melhor para mim. Conselhos são bons, mas a decisão é sempre minha. Se, no final, eu me convencer que um espelho vale três pedrinhas… bem, parece estranho, mas em quem mais posso confiar?

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8 Respostas to “O valor subjetivo”

  1. Marcio Says:

    Isso tudo para vc dizer que vc anda fazendo as coisas certas? Pô Adam, quem andou pegando no teu pé?

    Abraços do seu amigo funcionário publico, para o seu amigo não funcionário, mas que trabalha em uma empresa publica como um funcionário publico =)

  2. Philipe M. Says:

    Realmente interessante falar do valor subjetivo…

    Para entender bem a força do conceito, é só abrir uma revista de computação de, digamos, 1997 ou 1998 e pensar como as pessoas estavam dispostas a pagar R$3.000 por um Pentium II 266 com 256 GB de RAM e (uau!) disco de 6.4 GB, o que hoje nos achamos ridículo.

    Adorei o exemplo do índio e do iPhone tupi eu sei que não é um elogio para ti (mas para mim é), foi meio De Gustibus. =D

    No mais, boa sorte com a carreira e com as escolhas!…

    “Duro mesmo é quando o seu longo prazo se transforma no curto prazo!”

  3. Baduel Says:

    Parabéns pelo seu blog ….chequei aqui através da lista do “pythonbrasil” e este texto seu acho que reafirma a tradução que vc fez.Parabéns ,abraço,sorte e paz!

  4. brandizzi Says:

    Resovi responder, depois de alguns meses :)

    Márcio: hehe, ninguém andou pegando no meu pé. É só que eu achei um tema interessante para escrever. Esses foram só dois exemplos que encontrei. Ademais, não estou dizendo que dessa água não beberei, né? :)

    Philipe, obrigado pelo comentário! Quero deixar claro que não tenho nada contra o De Gustibus – diria que concordo com 97% do que eles dizem. Só não gosto muito do tom deles… e do fato de serem muito repetitivos. Ao menos quando eu lia.

    Baduel, obrigado pela visita! Que agradável supresa :) É bom saber que estou tão bem cotado, embora não mereça :p

    Abraços, galera!

  5. Marcos Calebe Says:

    Esse exemplo dos índios não me parece muito verossímil. Os portugueses trocavam coisas sem valor para eles por coisas sem valor para os índios devido a mais do que simplesmente os índios acharem ter alguma vantagem.
    Os índios tinha uma estrutura social baseada no parentesco, assim, através do dos laços de cunhadismo entre os dois povos, os portugueses os colocavam para trabalhar.
    Além disso, todos sabemos que aqueles espelhinhos não valiam o esforço. Era legítimo explorar os índios porque eles não tinham essa informação?
    Claro que estou sendo bem lacônico; essa discussão é bem maior que isso, mas aqui não é o espaço mais adequedo.

    Recomendo a leitura de O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro.
    Abraços bÜd

  6. brandizzi Says:

    @Marcos Calebe: bem, o exemplo do índio é mais metáfora que afirmação histórica, e certamente é mais complexo. Entretanto, o ponto é que o espelhinho certamente valia a pena, senão ninguém iria trabalhar por ele. O “cá entre nós” deixa evidente o quanto estamos falando de nossa visão européia, e não da indígena. De qualquer forma, não garanto a acurácia história do meu post: pense mais na metáfora :)

    Até!

  7. Space Invader Says:

    Bom, considerando que alguns povos aborígenes chegaram a fazer um verdadeiro “culto ao cargo” [1] (especialmente quando as diferenças tecnológicas são notórias ao ponto de parecerem mágica [2]), acho que pode ser que, em alguns casos, os índios realmente não sabiam o que estavam fazendo. :)

    Mas acho meio… estranha a sua comparação, porque parece-me que quando o índio trabalha tanto por espelhinhos e pentes, ele está satisfazendo anseios materiais, que não chegam a alterar significativamente o seu dia-a-dia (esses artigos seriam um fim em si, não um meio). Nada contra, mas se você reconhece que isso parece bom pra eles, talvez você devesse também ceder as tentações materialísticas e buscar a mesma satisfação material do índio e comprar o seu “iPhone-equivalente.” :P

    A menos, é claro, que você não esteja realmente sentindo essas tentações, o que, conhecendo você um pouco, acredito ser mais o caso. Se for isso mesmo, acho que esse post parece mais uma tentativa indireta de você se explicar pra outras pessoas sobre suas escolhas. E não acho que você realmente deva isso a elas… ;)

    Bom, até!

    [1] http://en.wikipedia.org/wiki/Cargo_cult
    [2] Althur C. Clarke, R.I.P.

  8. brandizzi Says:

    Pegaste o ponto: estou me explicando aos outros. Ok, não preciso, mas… ei, foi uma ótima desculpa para escrever algo para o blog, ué! :p

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