Archive for fevereiro \22\UTC 2010

Sobre a infanticida Maria Farrar

segunda-feira, 22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2010
Maria Farrar, nascida em abril,
menor, sem sinais particulares, raquítica, órfã,
sem qualquer condenação anterior ao que se julga,
é acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma:
Conta ela que já no segundo mês
em casa de uma mulher, num sótão,
tentou expulsá-lo com duas injeções
dolorosas, como se calcula, mas não saíu.
Não se indignem por favor,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Assegura contudo, ter pago de imediato
o estipulado, ter continuado a apertar a cintura,
ter também tomado aguardente com pimenta moída,
o que apenas serviu de forte purgante.
O corpo estava inchado e sentia também
dores frequentes quando lavava os pratos.
Estava ainda em idade de crescer, segundo ela própria dizia.
Rezou à Virgem Maria com muita fé.
a vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
As orações, ao que parece, não serviram de nada.
Pedia-se demasiado. Quando já estava mais cheia
sentia vertigens durante a missa. Suava muito.
E também suava de medo, com frequência, diante do altar.
Mas fez segredo sobre o seu estado
até ser surpreendida pelo nascimento.
Isto resultou, pois ninguém pensava
que ela, tão pouco atraente, pudesse ser presa de tentação.
E também a vós, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Nesse dia, diz, bem cedinho,
estando a limpar as escadas, sentiu como que umas unhas
a arranhar-lhe o ventre. A dor
sacudia-a, mas conseguiu manter-se calada.
Todo o dia, enquanto estendia a roupa que lavou,
pensou e tornou a pensar, até se dar conta,
de coração apertado, que tinha mesmo que parir.
Só tarde subiu para o quarto.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Quando estava deitada, vieram chamá-la;
tinha nevado e teve que varrer.
O trabalho durou até às onze. Foi um dia bem longo
Só pela madrugada pôde parir em paz.
Conta ela que pariu um filho.
O filho era igual aos outros filhos.
Mas ela não era como as outras, embora…
Não há motivo para brincadeiras.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Assim, pois, deixemo-la contar
o que sucedeu com este filho
(diz ela que não quer esconder nada)
para que se veja como somos.
Diz que ficou pouco tempo na cama
angustiada e sozinha;
sem saber o que aconteceria a seguir
obrigou-se a conter com esforço os gritos.
A vós também, peço que não se indignem
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Como o quarto também estava gelado,
segundo diz, arrastou-se com as últimas forças
até à latrina e ali
(quando, já não se recorda) pariu
sem ruído até ao amanhecer.
Estava, diz ela, muito perturbada nesse momento,
já meio entumescida, mal podia segurar o menino
prestes a cair na latrina dos criados.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Então, quando ia da retrete para o quarto
– antes, diz ela, não aconteceu nada – a criança
começou a gritar. Isso afligiu-a tanto
que se pôs a bater-lhe com os dois punhos,
cega sem parar até a criança ficar quieta.
Então, levou o morto
consigo para a cama durante o resto da noite
e pela manhã escondeu-o na lavandaria.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Maria Farrar, nascida em abril,
falecida na prisão de Meissen,
mãe solteira, condenada,
quer mostrar-vos os crimes de todo o ser humano.
Vós que paris sem complicações em lençóis lavados
e chamais “bendito” ao vosso ventre prenhe,
não condeneis estas infames fraquezas
porque, se o pecado foi grave, o sofrimento também foi grande.
Por isso peço que não se indignem
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

Navegando pelo Obvious, encontrei esse vídeo. Para mim, foi muito abstrato, mas fiquei curioso sobre quem seria Maria Farrar. Procurando mais, encontrei o poema de Bertolt Brecht aqui.

 

Não sei o quanto eu concordaria com Brecht – nunca o li consistentemente – mas concordo com qualquer um que diga que ele é um gênio da poesia.

Update: o vídeo é obra do pessoal do Balaio Variado.

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Eva

segunda-feira, 15 \15\UTC fevereiro \15\UTC 2010

Todos sabem que, algum dia, o Sol se apagará. Entretanto, isso não ocorrerá em bilhões de anos, mas sim de futuro relativamente próximo, em que ainda haverá humanos. No dia que em o Sol apagar, a Humanidade estará condenada, exceto por um casal que escapará, em uma nave, para fora da Terra em resfriamento. Entre complicados paineis de controle, viajarão pelo espaço, apenas os dois. Será a última chance de preservação da Humanidade e, mais do que isso, a última chance de preservação do amor

Conhece essa história? Já leu o livro? Já viu o filme? Certamente não, porque a história é contada assim:

Pois é, é uma canção de axé de ficção científica. Descobre-se cada coisa quando se vai a Porto Seguro

Meu amor
Olha só
Hoje o sol não apareceu

É o fim
Da aventura humana na Terra
Meu planeta adeus
Fugiremos nós dois na Arca de Noé

Mas olha bem, meu amor
O final da odisséia terrestre
Sou Adão e você será…

Minha pequena Eva (EVA)
O nosso amor na última astronave (EVA)
Além do infinito eu vou voar
Sozinho com você.

E voando bem alto (EVA)
Me abraça pelo espaço de um instante (EVA)
Me encobre com teu corpo e me dá
A força pra viver.

Meu amor
Olha só
Hoje o sol não apareceu

É o fim
Da aventura humana na Terra
Meu planeta adeus
Fugiremos nós dois na arca de Noé

Agora vem, meu amor
O final da odisséia terrestre
Eu sou Adão e você será…

Minha pequena Eva (EVA)
O nosso amor na última astronave (EVA)
Além do infinito eu vou voar
Sozinho com você

E voando bem alto (EVA)
Me abraça pelo espaço de um instante (EVA)
Me encobre com teu corpo e me dá
A força pra viver

E pelo espaço de um instante
Afinal, não há nada mais
Que o céu azul
Pra gente voar

Sobre o rio Beirute ou Madagascar
Toda a Terra
Reduzida a nada
Nada mais

Minha vida é um flash
De controles, botões anti-atômicos.
Mais olha, olha bem, meu amor
No final da odisséia terrestre
Eu sou Adão e você será…

Minha pequena Eva (EVA)
O nosso amor na última astronave (EVA)
Além do infinito eu vou voar (eu vou voar)
Sozinho com você (com voce)

E voando bem alto (EVA)
Me abraça pelo espaço de um instante (EVA)
Me encobre com teu corpo e me dá
A força pra viver (pra viver)

Minha pequena Eva (EVA)
O nosso amor na última astronave (EVA)
Além do infinito eu vou voar
Sozinho com você

E voando bem alto (EVA)
Me abraça pelo espaço de um instante (EVA)
Me encobre com teu corpo e me dá
A força pra viver

Essa música, porém, tem mais história ainda. Embora tenha ficado famosa pela interpretação de Ivete Sangalo – digo, para os mais jovens – ela foi gravada pela primeira vez, em português, pela banda Rádio Táxi, como pop rock em 1983. Até há pouco, só conhecia a interpretação da Ivete Sangalo, mas a de Rádio Táxi já se tornou a minha preferida – embora ainda goste da versão pela qual a conheci. Aqui temos o clipe original, mas também recomendo o vídeo abaixo não só pela música, mas até pela montagem visual que, embora amadora, foi feita com considerável capricho.

Por fim, falei que Rádio Táxi gravou a primeira versão em português porque a canção é, na verdade, uma tradução de Eva, uma canção italiana de Umberto Tozzi, gravada em 1982:

Muito curiosamente, já li comentários de italianos dizendo preferir as versões brasileiras. Há também a versão em espanhol, da cantora cubano-porto-riquenha Lissette Álvarez.

E é por isso, pessoas, que parei de ser um daqueles chatos e arrogantes críticos de axé :) Até mais!


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