Archive for março \20\UTC 2010

As compras na mercearia comunista

sábado, 20 \20\UTC março \20\UTC 2010
Manuel Zelaya, de chapéu e jaqueta, com seu característico bigode

Manuel Zelaya

Eu fiquei feliz com o desfecho do golpe hondurenho de 2009: o avanço do chavismo foi detido mas a mensagem de que golpes de Estado não são mais bem-vindos na América Latina foi dada. Entretanto, parece que os eventos não foram a tragédia de Tchecov que eu imaginava, pois há  problemas sérios no país.

Os partidários de um ou outro lado acusarão Zelaya ou Micheletti e Lobo furiosamente: uns dirão que Zelaya foi o maior problema de Honduras; outros, que o maior problema de Honduras foram os golpistas. Entretanto, o problema é mais profundo: é não ter alternativas a nenhum dos dois. Nada é pior para um país do que ter de escolher entre um Zelaya e um golpe.

Hugo Chávez, de camisa amarela, saudando a multidão, com vários seguranças

Hugo Chávez

É o mesmo problema que assola a Venezuela. Hugo Chávez é um presidente incompetente e autoritário, com histórico golpista. Entretanto, foi eleito democraticamente em 1998 e vítima de golpe fracassado em 2002. Posteriormente, Chávez expandiu seu poder grandemente, tornando-se cada vez mais autocrático. O mal venezuelano, porém, não é Chávez ou sua oposição golpista, mas sim o fato de só Chávez e oposição golpista terem relevância política na Venezuela.

Se as afirmações de algumas pessoas forem verdadeiras, podemos dizer que esse era também o mal do Brasil nos anos 60. Há quem julgue que, nessa década, o país estava na iminência de uma tomada de poder por comunistas; o golpe de 1964 seria uma resposta ao comunismo. Não entrando no mérito da veracidade da versão, o fato é que um país dividido entre um ou outro regime de exceção é um país condenado.

José Sarney, de óculos e terno cinza

José Sarney

Até hoje podemos ver isso perto de nós. Quantos brasileiros reclamam do poder do clã Sarney? Muitos, certamente. Entretanto, o oponente que conseguiu tomar o poder da família em seu território não era lá grandes coisas, também, e foi deposto. Por isso, não é razoável torcer apenas para que os Sarney saiam do poder; é preciso criar alternativas sólidas o suficiente para enfrentá-los. Como elas não surgem no Maranhão, o estado fica sob controle da oligarquia.

Portanto, se você espera que o ambiente político mude, seja em Honduras, Cuba, Maranhão ou Distrito Federal, não basta procurar derrubar os déspotas e os corruptos apoiando tacitamente seus opositores. É preciso desenvolver alternativas, colocar algo melhor no lugar. Quem reclama deve estudar, buscar melhores alternativas e até se candidatar, se as alternativas existentes são mais do mesmo. Isso envolve muito mais esforço e mãos sujas do que apenas reclamar, mas é necessário. Enquanto não houver alternativas, substituir os governantes será como escolher entre o café e o chá horríveis do mercado comunista: muda-se a bebida quando se devia mudar o sistema.

Medo

segunda-feira, 1 \01\UTC março \01\UTC 2010

Frequentemente, tenho medo.

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Não há razão para o medo; digo, nenhuma razão específica. Apenas sinto a contração do estômago, os calafrios sob a pele e um tremor de pernas. Há, sim, razão para o medo, mas a razão está sempre lá: a possibilidade da escolha errada, a irreversibilidade das atitudes, o risco no próximo passo. Eu devia sentir medo sempre.

Navios jogados à costa em uma tempestade

Navios jogados à costa em uma tempestade

Entretanto, não preciso parar por medo. O medo geralmente não é sinal de perigo – mas sim de ignorância. Para além do medo, alcancei mais, aprendi mais, produzi mais. Quando temo o próximo passo, ou o primeiro passo, lembro que posso mais do que imagino, e que os riscos podem valer a pena; assim, mesmo com medo, avanço. A perna de minha decisão caminha, trêmula, para o destino obrigatório. Minha mente pesa de pavor e sorri, como o halterofilista após superar seus limites.

Pôr-do-sol

Pôr-do-sol

Afinal, nem este visitante não é tão ruim se o anfitrião se impuser.


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