Archive for agosto \29\UTC 2010

Ehma

domingo, 29 \29\UTC agosto \29\UTC 2010


Emmanuel Codden, cujo nome artístico é Ehma, é um músico (pianista e compositor) belga. Encontrei-o incidentalmente no Jamendo, um maravilhoso site no qual músicos comportilham gratuita e livremente suas obras, todas sob a bênção da Creative Commons.


Ehma foi uma das descobertas mais felizes que fiz no Jamendo. Sua música é suave mas energizante. Seu ritmo calmo não é lento, apenas paciente. Sua alegria é felicidade – mas a melancolia é o pano de fundo. Algumas das músicas são oníricas como poucos fenômenos. Aguçam os sentidos sem causar preocupação. Fazem me sentir como uma criança e um idoso, sem deixar de ser adulto. É como andar por uma nova dimensão do espaço.

Enfim, não tenho palavras para descrever suas obras  – mas tenho para recomendá-la. Ouça um pouco, experimente, sinta. Espero que aprecie os sons sublimes – e aguardo sua opinião!

Nada óbvio

domingo, 22 \22\UTC agosto \22\UTC 2010

“Óbvio”, o adjetivo, é contraditório. A obviedade faz mais sentido se é circunscrita, limitada no tempo e no espaço. Para o camponês medieval, a doença era obviamente uma consequência da feitiçaria. No futuro, a solução de vários problemas – digamos, a cura da Aids – talvez seja óbvia. Para o comunista, a inviabilidade do capitalismo é óbvia, mas o libertário vê a obviedade dos males do governo. Todas essas certezas são restritas, tópicas. Podemos eventualmente até olhar de fora, com condescendência.

Reprodução Proibida

Reprodução Proibida

Agora, há sentido em falar que algo é óbvio? Óbvio aqui e agora? Posso apontar para o céu e dizer que “é óbvio que é azul”, mas, justamente porque é óbvio, fiz apenas uma afirmação metalinguística. Esse é o problema da ideia de obviedade: se o fato é óbvio, por que apontá-lo? Dizer que algo é óbvio é uma maneira de atestar sua não-obviedade.

 

Golconda

Golconda

Devem existir usos significativos do “óbvio-aqui-e-agora”. Entretanto, esse conceito é quase sempre polêmico, agressivo, vazio. Qual a diferença entre dizer  “É óbvio que isto é assim” e “Isto é assim”? A diferença é que a primeira frase ofende o interlocutor. E é absurda: se fosse óbvio, não precisaria ser dito. Apontar algo como óbvio é um truque retórico: por que tentar convencer alguém de algo que é, bem, você sabe? Não vale a pena, o outro debatedor é simplesmente estúpido demais para ver o óbvio! Mesmo que o óbvio seja resultado de séculos de estudos de economia, filosofia, ciências, o que seja. Mesmo que o óbvio seja a consequência clara da pesquisa do doutorando.

 

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Assim, cuidado com a palavra! Porque ela provavelmente mente sobre si mesma, mas não engana a vítima intencionada. O ouvinte não pode aceitar a obviedade daquilo que não entende, e percebe a farsa. Apenas o apontador do óbvio pode cair na sua própria ilusão, deixando-se emaranhar pela obscura armadilha.

Lei Ficha-limpa

domingo, 15 \15\UTC agosto \15\UTC 2010

A principal razão para eu não ter assinado o abaixo-assinado pela Lei Ficha-limpa foi um engano. Eu julgava a lei por uma versão inicial, em que a mera denúncia seria suficiente para vetar a candidatura. Essa proposta é tão absurda que não poderia apoiá-la. Posteriormente, descobri que a lei havia evoluído um tanto: agora é necessária ao menos uma condenação por mais de um juiz, a partir de uma denúncia de um Ministério Público.

A proposta, porém, ainda assim era polêmica. Por exemplo, a lei poderia ferir o princípio da presunção de inocência. Os defensores da lei argumentaram que o princípio vale para o Direito Penal, mas não para o Direito Eleitoral. Não posso julgar a validade desses argumentos. Para mim, é claro que o candidato pode perder um direito sem ser condenado, mas há dispositivos semelhantes em outros contextos, como a reputação ilibada exigida dos ministros do Supremo Tribunal de Justiça. Deixo o julgamento para tribunais superiores, que, creio, podem até vetar a lei, se for realmente inconstitucional.

Nota-se também que a lei pode ser injusta, ao punir o político menor deixando passar o “peixe grande”. Seria talvez até pesada demais, punindo desvios catalogados mas menores. De fato, ocorrem tais casos. Entretanto, o rigor não é, necessariamente, mau negócio. Vários apoiadores da lei têm em mente os políticos suspeitos mais poderosos, mas não é razoável que não se cometam pequenas diabrites também.

Assim, achei interessante a aprovação da lei. É resultado de uma mobilização realmente popular – que seja rotulada de medioclassista, pois classe média também é povo. Ataca um problema que existe de fato, que é o entricheiramento de criminosos na política. Ademais, mesmo que não venha a ser uma boa solução, é um atendimento razoável a um pedido muito justo: não ser governado por criminosos.

Entretanto, ainda assim eu não assinaria o abaixo-assinado. Primeiro, porque não é assim que eu quero a mudança. Vetam-se certos políticos mas é difícil construir e posicionar lideranças que os substituam, o que é mais importante. A lei está associada – embora não dependa logicamente de – uma visão que tende a piorar essa situação: a ideia de que a política é intriscecamente ruim, que pensar em política é ruim, e que o pensamento crítico em política é sempre a oposição a todos os lados e opiniões. Quase todo mundo que conheço que apoiou o projeto pensa mais ou menos assim. Esse pensamento é muito pernicioso. A lei não depende deste pensamento, nem está inequivocamente ligado a ele, mas foi nutrida nesse ambiente, o que me incomoda.

Além disso, o político desonesto mas hábil pode esquivar-se, mas o pequeno opositor pode, sim, ser vítima injustiçada da lei. Pior ainda é lei se tornar uma arma do transgressor que inspirou a lei. Isso não só não é impossível como já aconteceu em outras situações. Eu me preocupo muito mais em ter um bom candidato em que posso votar que em vetar um mau candidato. Pior que deixar passar um mau político é reter um bom candidato.

Por fim, não quero perder tempo com uma lei que não corrija a própria justiça brasileira. A impunidade dos corruptos é apenas uma das consequências da lentidão judiciária. Mais que isso: uma justiça ineficiente é a causa da impunidade em geral, da violência e do desrespeito à lei. Essa lei é, então, um truque de espelhos para disfarçar o problema maior sacrificando uns bodes expiatórios. Se o gargalo jurídico for resolvido, uma gambiarra como a Lei Ficha-limpa não seria  necessária.

Pode-se dizer que a situação atual é crítica e uma solução ad hoc é necessária. Eu não acredito nisso. Desde que entendo o que é um deputado, vejo a política melhorar, subir de nível. Ademais, muitos desses comentadores sequer entendem o que é efetivamente um crime, e julgam que comportamentos antipáticos deveriam vetar o candidato. Certamente nem todos os apoiadores da lei são tão ingênuos, mas a maioria dos que conheci são.

Ademais, está havendo uma tendência, pouco destacada mas existente, em direção a uma justiça mais eficiente. Por exemplo, o Conselho Nacional de Justiça trabalha em projetos interessantes que, embora eu não conheça em profundidade, parecem estar dando resultados. Prefiro ver onde isso vai dar. Ainda assim, se me apresentarem um abaixo-assinado de um projeto de reforma do Judiciário com o qual eu concorde, contem com minha assinatura. Infelizmente, a Lei Ficha-limpa não se encaixa nessa categoria.

Eu não tenho a repulsa que várias pessoas têm pela lei e seus apoiadores. Entendo as motivações do movimento, e concordo com várias. Achei o movimento, em sua estrutura e dinâmica, muito democrático: o povo participou ativamente da criação de uma lei relevante que foi aprovada. Gostei de ver isso, mas não apoio a lei. Se não chego a ser um opositor, ao menos me reservo o direito de não participar do movimento. Eu mesmo achei minha posição estranha, mas porque, entre discussões polarizadas e extremas, parece que só se pode ser violentamente a favor ou virulentamente contra alguma coisa. Não é assim e, por isso, digo confortavelmente que desprezo a Lei Ficha-limpa.

Sobre uma moça siliconada

domingo, 8 \08\UTC agosto \08\UTC 2010

Vi na televisão a história uma moça que fizera vários implantes de silicone. Em minha opinião, ficou com seios grotescos, mas essa não é uma posição unânime, porque a moça fez sucesso com seu busto avantajado. De qualquer forma, em alguma das várias cirurgias a jovem acabou sofrendo uma infecção com alguma bactéria perigosa, colocando-a em risco de morte.

Muita gente comentaria sobre como, em certo sentido, a sociedade forçaria a mulher a fazer suas cirurgias. Não foi o pensei naquele momento: acredito e assumo que ela fez o que fez por vontade própria, provavelmente bem informada, assumindo os riscos. Também não quero comentar o programa, um freak show constrangedor, que apoiou as escolhas dela e, agora, explora a situação da moça. No final das contas, o programa provê apenas o que as pessoas – e a própria mulher – querem. O importante é que eu vi uma cena profundamente triste e humana.

Não foi a doença, em si, que me abalou. É triste mas muita gente fica doente, acontece. Não foi a própria moça que se submeteu ao risco? Já estou suficientemente insensível para isso. Não, realmente triste foi a entrevista: a moça comenta que está em uma situação difícil e que, quando sua saúde melhorar – um “quando” como um “se” eufemístico – irá reduzir os implantes, já queria fazer isso. De repente, ela se vira para o apresentador e, com a voz baixa e o olhar amedrontado, diz que espera que o Brasil continue amando-a, mesmo depois da redução.

Eu fiquei comovido ao ouvir isso. Ali havia muito medo, grande necessidade de afeto. Perguntei-me – ela fez as cirurgias para ser amada? Senti uma aflição e uma empatia estarrecedoras. Tive vontade de ir lá, abraçá-la e dizer que não seja por isso! estou aqui, eu a amo e agora melhor e pegue leve, ok?

Ademais, minha afetação intelectual se dissolveu. Eu sempre me achei muito culto e inteligente, mas já começara a me enjoar de pavonear minha intelectualidade: cansara de falar mal de novelas e programa de domingo a tarde, de funk e de tecnobrega. Ao ouvir a moça, isso se consolidou. Em um dos programas que mais detesto, vi uma pessoa, que tomaria como meu contrário, mostrando um estado tão humano que imediatamente desmontou minha arrogante caçoada.

Na verdade, isso não importa. Talvez eu devesse fazer alguma coisa. Sei lá, quem sabe mandar uma mensagem no perfil do Orkut da enferma, junto com montes de fãs que enviam clichês que dizem para confiar em Deus. Confesso que até para mim isso se parece com “descer muito”, mas a questão é justamente essa: eu nunca estive tão acima assim…


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