Sobre uma moça siliconada

Vi na televisão a história uma moça que fizera vários implantes de silicone. Em minha opinião, ficou com seios grotescos, mas essa não é uma posição unânime, porque a moça fez sucesso com seu busto avantajado. De qualquer forma, em alguma das várias cirurgias a jovem acabou sofrendo uma infecção com alguma bactéria perigosa, colocando-a em risco de morte.

Muita gente comentaria sobre como, em certo sentido, a sociedade forçaria a mulher a fazer suas cirurgias. Não foi o pensei naquele momento: acredito e assumo que ela fez o que fez por vontade própria, provavelmente bem informada, assumindo os riscos. Também não quero comentar o programa, um freak show constrangedor, que apoiou as escolhas dela e, agora, explora a situação da moça. No final das contas, o programa provê apenas o que as pessoas – e a própria mulher – querem. O importante é que eu vi uma cena profundamente triste e humana.

Não foi a doença, em si, que me abalou. É triste mas muita gente fica doente, acontece. Não foi a própria moça que se submeteu ao risco? Já estou suficientemente insensível para isso. Não, realmente triste foi a entrevista: a moça comenta que está em uma situação difícil e que, quando sua saúde melhorar – um “quando” como um “se” eufemístico – irá reduzir os implantes, já queria fazer isso. De repente, ela se vira para o apresentador e, com a voz baixa e o olhar amedrontado, diz que espera que o Brasil continue amando-a, mesmo depois da redução.

Eu fiquei comovido ao ouvir isso. Ali havia muito medo, grande necessidade de afeto. Perguntei-me – ela fez as cirurgias para ser amada? Senti uma aflição e uma empatia estarrecedoras. Tive vontade de ir lá, abraçá-la e dizer que não seja por isso! estou aqui, eu a amo e agora melhor e pegue leve, ok?

Ademais, minha afetação intelectual se dissolveu. Eu sempre me achei muito culto e inteligente, mas já começara a me enjoar de pavonear minha intelectualidade: cansara de falar mal de novelas e programa de domingo a tarde, de funk e de tecnobrega. Ao ouvir a moça, isso se consolidou. Em um dos programas que mais detesto, vi uma pessoa, que tomaria como meu contrário, mostrando um estado tão humano que imediatamente desmontou minha arrogante caçoada.

Na verdade, isso não importa. Talvez eu devesse fazer alguma coisa. Sei lá, quem sabe mandar uma mensagem no perfil do Orkut da enferma, junto com montes de fãs que enviam clichês que dizem para confiar em Deus. Confesso que até para mim isso se parece com “descer muito”, mas a questão é justamente essa: eu nunca estive tão acima assim…

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4 Respostas to “Sobre uma moça siliconada”

  1. Borboleta Roxa Says:

    Não há como sabermos, mas não creio que “ela fez o que fez por vontade própria, provavelmente bem informada, assumindo os riscos”.
    Infelizmente hoje com a popularização de qualquer tipo de cirurgia, as pessoas acham que fazer cirurgia é “a mesma coisa” que ir ao cabeleleiro, onde se o corte de cabelo ficar ruim, é só esperar crescer de novo.
    Pessoas fazem cirurgias sem nunca terem feito exames básicos, como de sangue ou cardíacos. Pssoas fazem cirurgias plásticas numa sexta-feira e na segunda estão trabalhando, todas roxas e doloridas, num prazo em que deveriam estar de repouso absoluto.
    Acho que falta muita informação para a população em geral sobre os riscos desses procedimentos, que deveriam ser ditos pelos médicos. Mas como vários desses só estão preocupados com o dinheiro que irão receber, faezm tudo que a cliente quer, mesmo que não seja o correto.

    • brandizzi Says:

      É um ponto interessante e concordo que devam acontecer muitos acidentes por desinformação. Entretanto, esse caso tem aspectos diferentes. A mulher viera dos Estados Unidos para o Brasil justamente porque os médicos de lá não fariam a operação. Isso, por sua vez, é uma evidência do que você mesmo fala, mas a oportunidade de ser informada, eu chuto, ela teve.

      Obrigado pelo comentário :) Até mais!

  2. Walkiria Eyre Says:

    Sabe, eu escreveria esse post em um blog meu com, praticamente, as mesmas palavras. Pelo menos a mesma linha de raciocínio. Recentemente estive me perguntando se é uma coisa coletiva, mal da nossa geração. Ou ainda se é coisa da idade mesmo…

    O que posso dizer é que passo quase que diariamente pelo que vc descreveu, não é engraçado? Não sei se estamos prestando mais atenção ao nosso redor que ao nosso umbigo, ou se a sensibilidade aumenta com a idade…

    Há uns dias, ouvi uma pessoa dizendo o seguinte: quando o mendigo vem pedir dinheiro no sinal, porque vc fecha o vidro? Medo de ser assaltado? Mentira. Vc fecha porque tem nojo. Temos nojo de pessoas que possuem necessidades, vontades e desejos (que acreditamos ser) inferiores aos nossos.

    Quando ouvi isso percebi o quanto fui arrogante toda a vida, sem ao menos percebê-lo.

    Com relação ao caso da moça, é difícil avaliar a fronteira entre o “fez porque quis” e o “fez pq a sociedade impõe” padrões (nojentos) de beleza. Acho que é um misto de tudo isso e ainda mais coisas…

    • brandizzi Says:

      Walkíria, eu tenho pensado muito nessa arrogância, que sempre tive. Penso em escrever sobre isso, mas não consigo organizar meus pensamentos ainda.

      No que tange ao nojo que sentimos pelas pessoas, aqui no Rio de Janeiro – onde a miséria é muito mais comum e visível – eu vejo o quanto isso me afeta. Não consigo sequer olhar para essas pessoas, e isso porque eu tento fazer isso. Não sei como trabalhar com esse problema, ainda.

      De resto, concordo que a fronteira é imprecisa mas, justamente por ser imprecisa, resolvi destacar um lado que não é muito evidenciado. Mas os dois aspectos são relevantíssimos, só ocorreu que foquei em um para fins, como direi? didáticos.

      Até!

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