Nada óbvio

“Óbvio”, o adjetivo, é contraditório. A obviedade faz mais sentido se é circunscrita, limitada no tempo e no espaço. Para o camponês medieval, a doença era obviamente uma consequência da feitiçaria. No futuro, a solução de vários problemas – digamos, a cura da Aids – talvez seja óbvia. Para o comunista, a inviabilidade do capitalismo é óbvia, mas o libertário vê a obviedade dos males do governo. Todas essas certezas são restritas, tópicas. Podemos eventualmente até olhar de fora, com condescendência.

Reprodução Proibida

Reprodução Proibida

Agora, há sentido em falar que algo é óbvio? Óbvio aqui e agora? Posso apontar para o céu e dizer que “é óbvio que é azul”, mas, justamente porque é óbvio, fiz apenas uma afirmação metalinguística. Esse é o problema da ideia de obviedade: se o fato é óbvio, por que apontá-lo? Dizer que algo é óbvio é uma maneira de atestar sua não-obviedade.

 

Golconda

Golconda

Devem existir usos significativos do “óbvio-aqui-e-agora”. Entretanto, esse conceito é quase sempre polêmico, agressivo, vazio. Qual a diferença entre dizer  “É óbvio que isto é assim” e “Isto é assim”? A diferença é que a primeira frase ofende o interlocutor. E é absurda: se fosse óbvio, não precisaria ser dito. Apontar algo como óbvio é um truque retórico: por que tentar convencer alguém de algo que é, bem, você sabe? Não vale a pena, o outro debatedor é simplesmente estúpido demais para ver o óbvio! Mesmo que o óbvio seja resultado de séculos de estudos de economia, filosofia, ciências, o que seja. Mesmo que o óbvio seja a consequência clara da pesquisa do doutorando.

 

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Assim, cuidado com a palavra! Porque ela provavelmente mente sobre si mesma, mas não engana a vítima intencionada. O ouvinte não pode aceitar a obviedade daquilo que não entende, e percebe a farsa. Apenas o apontador do óbvio pode cair na sua própria ilusão, deixando-se emaranhar pela obscura armadilha.

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2 Respostas to “Nada óbvio”

  1. Manoel Leonam Says:

    Concordo contigo, “óbvio” é um termo de uso quase que exclusivamente retórico. O que não diminui o valor expressivo da palavra. Mas, como bem disse, deve-se ter cuidado para não tomar um artifício estilístico por manifestação de um fato. Confesso que me surpreendi comigo mesmo ao ler seu texto, pois me interesso por investigações sobre linguagem, sobretudo a linguagem comum, não formal, e nunca tinha atentado para esse termo tão corriqueiro e nada, digamos, óbvio (rs).

    Na lexicografia portuguesa “óbvio” significa tanto dizer que algo é “evidente”, “fácil de ver”, como também, “incontestável”, “axiomático”. São sentidos próximos; próximos, não idênticos. Estou inclinado a concordar contigo, se trata de uma espécie de operador (se é que posso falar nesses termos) metalinguístico, ou, dito de outro modo, um marcador de sentenças. Para preservarmos as duas acepções do termo, penso que poderíamos traduzir significativamente uma expressão como “é óbvio que isso é assim” como “isso e apenas isso decorre necessariamente daquilo [nesse contexto]”, ou “chamo atenção do interlocutor para isso em detrimento de qualquer não-isso.” Nos dois casos, porém, a força erística do termo se perde.

    Na primeiro tradução, dizer que algo é óbvio é simplesmente dizer que determinada ideia decorre necessariamente do argumento, e, nesse caso, o marcador é ocioso, posto que não poderia ser de outra forma (incontestável). No segundo, o enunciador chama atenção do interlocutor para determinado aspecto, considerando-o mais relevante, em detrimento de outro (fácil de ver), nesse caso, podemos dizer sem incorrer em contradição que algo é óbvio pra alguém e não é pra outro, onde queremos apenas dizer, que algo é relevante pra um, mas para o outro, não.

    Mas, acredito eu, que tanto uma tradução quanto outra, apesar de tentarem extrair um valor lógico do termo em seu uso vulgar, pecam por excluir o que há de realmente importante em seu uso, sua expressividade (que é uma das dimensões mais importantes na linguagem comum), a qual reside exatamente em transitar na névoa da ambiguidade de seus dois sentidos.

    Os problemas surgem quando se pretende introduzir seu uso em âmbitos de uso de linguagens formais, nas linguagens das ciências, matemáticas, ou seja, linguagens artificiais em maneira geral. Sobretudo, quando o enunciador acredita que está a se expressar de forma rigorosa lançando mão de termos expressivos, os quais seu uso excede valores meramente lógico-sintáticos. E como, nas nossas atividades comunicativas do dia a dia, transitamos entre vários âmbitos especializados da linguagem, a confusão facilmente se instala.

    • brandizzi Says:

      Depois que publiquei o texto, percebi que ele ficou exagerado na repulsa à palavra. Já imaginava que seria assim, tanto que escrevi que “Devem existir usos significativos do ‘óbvio-aqui-e-agora'”, mas não visualizava como seria possível isso na hora. Seu comentário apresenta bem com possibilidades claras que não me ocorreram: falar do “óbvio” pode ser um artifício retórico, enfático, perfeitamente válido.

      O ponto do texto persiste, ainda: “óbvio” é, bem, menos óbvio do que parece. Pode até nos cegar para o fato de que a obviedade é relativa e dar um tom arrogante que nem percebemos ao que dizemos. Mas seu complemento foi muito salutar. Obrigado por comentar, enfim :)

      Até!

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