Redes sociais e comentários de blogs

Hoje, vi este post do Alex Castro nos itens compartilhados do Google Reader. Ironicamente, o post, que fala sobre como comenta-se menos em blogs e mais em redes sociais, gerou uma bela discussão no Google Reader que o autor não verá.

O problema do LLL é um pouco maior que a tecnologia. Para muita gente, ele está ficando mais e mais desinteressante – para mim também, por sinal. Entretanto, as pessoas de fato abandonam os blogs e comentam nas redes sociais. Meu segundo maior sucesso na Internet*, por exemplo, gerou umas três threads ricas de comentários que eu vi no Buzz, mas poucos comentários no artigo. Talvez tenha havido outras discussões sobre este texto que nunca lerei.

Muita gente disse que o post do Alex era “mimimi” – o próprio autor diz isto no título. Apesar disto, a reclamação, típica do Classe Média Sofre, é justa. Para quem mantém o blog pelos comentários, perdê-los é algo ruim. Há blogueiros que mandam sua mensagem em um broadcast simplex – não precisam da resposta e nem sequer esperam ser lidos, necessariamente – mas há aqueles que querem o diálogo. Se ele escreve para conversar, é justo que faça uma campanha para que isto aconteça.

O problema é maior, porém, porque até nós leitores perdemos algo neste cenário. Em blogs com comentadores recorrentes há o diálogo inesperado, o conflito, o desafio às ideias preconcebidas. No LLL, por exemplo, ao post seguem-se os comentários da aiaiai concordando com tudo que o autor diz, o Paulo falando como se fosse John Galt, o Jorge Nobre fazendo copia-e-cola daquele textinho meio nonsense, a Indy escrevendo coisas meio difíceis de entender… Enfim, há diversidade em um blog. O LLL é só um exemplo, há outros ainda mais notáveis, como o Na Prática a Teoria É Outra, o antigo blog do Pedro Doria etc.

Isto não acontece em uma rede social. No Facebook, Google Reader etc. tendemos a seguir pessoas que conhecemos e com quem concordamos. Somos todos convertidos pregando uns para os outros, satirizando nossos inimigos e argumentando contra o espantalho deles. Não temos mais acesso à discordância. Estes dias mesmo, fui espinafrado em uma discussão numa thread do Google Reader de outra pessoa que sigo, quando tentei inquirir mais rispidamente alguém de quem eu discordava. Nada mais justo, aliás: rede social é para isto mesmo, falar com os amigos, reencontrá-los. Eu tenho uma abordagem diferente – discussões que passam dos cem comentários são tão comuns no meu Google Reader/Buzz que ganharam o apelido de Adam-threads – mas o correto é que minha abordagem se aplique apenas a meu território e eu respeite o alheio.

Redes sociais não são ruins, e têm a vantagem de justamente serem mais amenas, mas o incesto ideológico não é tão saudável. Por isto, comentários em blogs têm seu valor, e é uma pena que se reduzam. O que podemos fazer, então?

Na thread sobre o texto do Alex, alguém já perguntou se havia ferramentas para notificar o autor sobre comentários a seus posts. Há uma limitação a esta abordagem – que já apontaram lá, inclusive – que é a violação da privacidade. Entretanto, comentários públicos podem ser buscados e existem ferramentas para facilitar este trabalho. No Twitter, há as pesquisas salvas. Os alertas do Google são muito úteis, também. São soluções limitadas, mas é bom conhecê-las.

Além disto, talvez valha uma nova etiqueta. Quando um texto que compartilho gera um belo debate, posto o link no blog do autor. Pode ser um bom hábito. Os blogueiros também podem agir. Na thread que citei, muitas pessoas comentaram como vários blogueiros são desagradáveis ou pouco acessíveis. Se querem os comentários de volta, há também o que os autores podem fazer.

A nova dinâmica da Internet é surpreendente. Ao mesmo tempo em que reforçam amizades, também podem levar a bolsões de ideias concordantes. Esta é a face negativa de um grande avanço, mas não precisamos nos subordinar a elas. Com tempo, ferramentas e práticas corretas, poderemos ao menos recuperar um pouco do mundo passado.

* Meu maior sucesso na Internet foi alguém, em nome do Felipeh Campos, me ameaçar de processar-me por uma votação da Wikipédia.

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7 Respostas to “Redes sociais e comentários de blogs”

  1. Pablo Says:

    Como não vi esse texto compartilhado lá no Google Reader, vou comentar por aqui mesmo, ok? =P Pois, concordo com você. O Google Reader tem um clima meio segmentado, meio “panelinha”. Acho bacana a facilidade que ele dá para administrarmos o que lemos e o que comentamos, mas tem coisas que não funcionam direito.

    Se por um lado esse foi mais um caminho para encontrar pessoas interessantes e trocar ideias com elas, por outro lado andei vendo coisas meio decepcionantes, justamente em relação às pessoas mais diferentes de nós, com quem teríamos mais a ganhar trocando ideias. Uma delas é termos nossos comentários sumariamente ignorados por quem não nos conhece. Então tá, eu vejo estes posts interessantes escritos por esta pessoa que eu não conheço, mas que alguém que acho inteligente compartilhou. Vou lá, sigo essa pessoa que escreveu estes posts interessantes, e depois de algum tempo começo a deixar alguns comentariozinhos… Mas eles não entram na “panelinha”, ninguém responde aos comentários, e quando começa uma discussão, todos ignoram o que foi dito antes. A impressão que passa é que você não é apenas um intruso, mas alguém totalmente irrelevante, que ninguém tem o menor interesse no que você pensa.

    Outra coisa decepcionante é você tentar interagir com algumas pessoas do mesmo modo que interagia quando estas mesmas pessoas eram autoras de blogs: tentando ser intelectualmente honesto com elas. Se em um blog o autor coloca seu próprio pensamento, no Google Reader a pessoa compartilha algo que achou interessante ou a fez pensar, mesmo que não concorde. Se comentamos no blog, entendemos que o autor se vê compelido a responder. Já no Google Reader, não há essa compulsão; mesmo assim, há quem se apegue a seus próprios compartilhamentos de tal forma que já levei o maior esporro de uma pessoa por ter comentado criticamente (e respeitosamente) algo que ela compartilhou… Porque a intenção dela não era discutir o que tinha postado, mas sim divulgar o que pensava e arrebanhar correligionários. Ora, isso pra mim é exemplo dessa relação incestuosa que você mencionou.

    Bom, esse assunto dá muito pano pra manga, mas vou ficando por aqui para não me estender demais. =]

    • brandizzi Says:

      Olá, Pablo!

      Desculpe, só demorei um pouco a compartilhar o post, que está compartilhado aqui. Ao contrário do que rezam as lendas, eu não estava tentando trazer as pessoas para comentar aqui… necessariamente :)

      Acho que compartilhamos as mesmas frustrações com Google Reader, que de resto é ótimo. Tem uma nova etiqueta para o Google Reader. O Google consegue recomendar pessoas muito melhor que eg o Who to Follow do Twitter (cuja sigla é, fittingly, WTF). Só que parece que o Reader é mais pessoal, então tem muitas pessoas que não estão dispostas a debater pesado. Varia muito, mesmo. No meu, quanto mais discussão sem ofensa gratuita, melhor. Já outras pessoas querem justamente isto, só propagandear.

      Enfim, estão no direito delas, mas isto impõe um desafio para nós, que amamos sair pelos Readers alheios :) De qualquer forma, é interessante ver como este processo vai se desenvolver, e qual vai ser o resultado.

      E se quiser comentar lá no compartilhado, sinta-se livre :)

      Até!

  2. Manoel Leonam Says:

    Tenho sentimentos dúbios quanto a isso. Alguns textos que publico no meu blog, gostaria que tivessem alguma repercussão – qualquer uma! -, mas parecem passar batidos (geralmente textos que eu não tento ser engraçadinho). Outros, que escrevo sem muita pretensão, geram comentários sem fim, geralmente comentários ruins, mas meus textos não são lá grandes bostas, e são evidencia de que foram lidos, enfim. Como hoje em dia não divulgo meu blog praticamente em lugar nenhum, salvo uma outra vez que o compartilho no google reader para minha meia dúzia de seguidores (que é outro mistério, o porquê diabos me seguem, já que meus compartilhamentos são um tanto, digamos, idiossincráticos demais), e também não faço mais parte de nenhuma rede social, não tenho, assim, ideia se meu número de leitores aumentou ou diminuiu com o tempo (se é que alguma vez tive um número de leitores suficiente para haver uma diminuição).

    Eu tenho um desses plugins instalado, que registra o número de vezes que um texto foi compartilhado em algumas redes sociais. É frustrante ver em alguns textos o contador marcando 70, ou mesmo mais de 100 vezes compartilhado em lugares como Facebook e Googlebuzz, mas eles, no blog, possuírem menos de dez comentários. Eu já tentei procurar, e não consigo descobrir quem são essas pessoas.

    Por um lado, isso serve (para mim, no caso) como uma espécie de rédeas para o ego. Na época que eu tinha twitter e tudo mais, e acompanhava o que as pessoas comentavam sobre os textos, ficava tentado a adequar o que escrevo ao gosto do público, o que se tratando do meu blog, um blog bastante pessoal e que troca de assunto e estilo que nem camisinha em puteiro, não faz muito sentido e, não raro, gerava textos a baixo do fundo do poço da média.

    Por outro lado, é solitário e, às vezes, desestimulante a sensação de se estar falando sozinho na imensidão da internet, e nunca ter uma medida se se está a acertar a mão nas letrinhas ou não.

    Por um terceiro lado (?), ser um blog do tipo obscuro, frequentado por poucas almas sombrias, tem lá seu charme. Apesar de desejar – quem não deseja pelo menos um pedacinho desse bolo não publica na internet, não é mesmo? -, não sei se suportaria uma exposição maior. As vezes não sei como lidar com certos comentários que conseguem ser mais agressivos e sem noção do que as merdas que eu escrevo, porém, geralmente, sem o menor senso de humor. Quem dirá se eu tivesse que lidar com enxurradas constantes de comentadores assim.

    Um consolo, precário como tudo o que é feito pra consolar, é que os poucos leitores regulares do Preta, dos quais tenho conhecimento, são pessoas que admiro.

    • brandizzi Says:

      Olá, Manoel!

      Pelo visto, você passa um pouco pelo que o texto comentado fala, e que eu sinto também. Nos dá certa angústia não saber o que estão falando do nosso texto, né? Ao menos para mim, me dá uma sensação de oportunidade perdida de conhecer alguém, conversar, expandir o círculo de amizades…

      Além disto, também tenho este sentimento ambíguo sobre o crescimento do blog. Queria que meu blog tivesse mais repercussão – senão, como você mesmo diz, para que escrever? – mas também não sei se quero passar pelo estresse de um blog popular. Hoje, ele serve mais como um lugar onde posto minhas opiniões a partir de minha ótica. Eu participo de muitos fóruns (Google Reader/Buzz, Twitter, outros blogs etc.) e neles geralmente as discussões já são guiadas, já têm um tom e sobra apenas tomar um lado ou outro. Raramente, porém, me encaixo bem em um lado de uma discussão. Aqui, posso falar com calma, livre da carga da discussão já existente. Me pergunto se um blog assim pode fazer sucesso – e seria bom se fizesse…

      Até!

  3. Tarrask Says:

    Um bom exemplo dessa discussão: você citou o meu blog, e eu não vi, até bom tempo depois, mesmo sendo uma conversa que me interessa, e na qual eu fui citado. Ou seja, mesmo permitindo uma maior quantidade de lugares para conversar, nós também perdemos algumas conversas por não estamos em todo canto ao mesmo tempo.

    Malditas redes sociais. :D

  4. Permafrost Says:

    Coincidência ou não, tou repostando em meu blogue TODOS os comentários à mão, um por um, pq não achei jeito de o blogspot importá-los. São mais de dois mil, e já tou na metade. Futuramente talvez leve tudo pro WordPress.

    Não vejo graça nenhuma em “redes sociais”; é como ficar na varanda conversando com o vizinho na varanda dele.

    • brandizzi Says:

      Olá, Permafrost!

      Coincidência ou não, tou repostando em meu blogue TODOS os comentários à mão, um por um, pq não achei jeito de o blogspot importá-los. São mais de dois mil, e já tou na metade. Futuramente talvez leve tudo pro WordPress.

      Trabalhinho inglório, hein? Mas é bom, aposto que há muitas discussões notáveis neles.

      Não vejo graça nenhuma em “redes sociais”; é como ficar na varanda conversando com o vizinho na varanda dele.

      A princípio acho a mesma coisa, por isso não uso tanto “redes sociais de gente próxima”, como Orkut e Facebook. Entretanto, há outras redes sociais que expandem o horizonte de contatos e, por isso mesmo, vão além da vizinhança. Quando eu usava Google Buzz, por exemplo, a maior parte das pessoas com quem eu conversava eu nunca tinha visto pessoalmente. Inclusive, conversava e seguia russos, italianos, alemães, argentinos… Para alguém que nunca saiu do país e raramente sai da própria cidade, foi uma oportunidade única. Mas especialmente essas redes sociais estão relacionadas aos problemas que comentei.

      Até!

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