Archive for the ‘Crônica’ Category

Mar

segunda-feira, 15 \15\UTC novembro \15\UTC 2010

Eu nunca gostei muito do mar. Deve ser coisa de quem nasceu no cerrado, mas o mar também não ajuda.

Mar de Ipanema, em uma cor semelhante a turquesa, com uma onda e três banhistas. Céu azul limpo e uma ilha no horizone.

O mar sujou a lente da minha câmera fotográfica >:(

Por exemplo, o mar não é tão romântico quanto se pinta. Veja só, quando minha namorada veio do Distrito Federal para cá, eu lhe dei uma rosa, que ela deixou aqui quando voltou para casa. Eu não iria simplesmente jogar a rosa no lixo, oras: fui à Pedra do Leme e joguei a rosa ao mar, pensando nela… Quando contei isso à namorada, ela perguntou se eu disse algo como “Mar, leve esta rosa para meu amor”. Obviamente, eu não pensei: o mar não iria chegar ao Distrito Federal… Assim, mesmo depois de todos os meus esforços, o mar quebrou o clima.

Em primeiro plano, plantas rasteiras. Depois, rochedos. Após, o mar azul com ondas e, no horizonte, céu azul e algumas ilhas.

Olhando assim, nem parece um lugar terrível

Entretanto, o pior do mar é o medo que me causa. Como posso saber que a água não está cheia de esgoto? Que não há alguma  toxina mortal ali? E o risco de ser devorado por uma água-viva? Pior ainda: se já existem seres comocobras-do-mar, ouriços-do-mar, escorpiões-do-mar, quem garante que não surgirá um ebola-do-mar, e eu serei o paciente zero? Ideia ridícula, me dizem, isto nunca aconteceria. Ficaram nessa conversa de “isto nunca aconteceria” sobre o mar até que, do nada, surge a vida.

Uma praia com areia branca e mar azul ao fundo. Vários guarda-sóis vermelhos e pessoas na areia.

Vítimas indefesas

A verdade é que o mar do Rio de Janeiro também não ajuda. O mar de Copacabana, por exemplo, é muito forte. Eu mesmo, um marmanjo de 100 kg distribuídos em 1,85 m, começo sempre brincando e termino me arrastando para o calçadão com as costas em carne viva e fratura exposta. Essa violência toda deve ser bullying contra novatos, só porque estou aqui há somente alguns meses e o mar há uns quatro bilhões de anos.

Ok, essa parte aqui até é bonitinha

Mas podem escrever: não me darei por vencido! Todo fim-de-semana que passo no Rio, faço questão de andar por toda a praia de Copacabana até o Leblon. Ainda aprenderei a gostar do mar! Neste dia, poderei, finalmente, sair de todos os flamewars políticos, econômicos, religiosos, culturais e técnicos dizendo que bom mesmo é praia.

Pedra do Leme: fotografia tirada de cima de um rochedo (a Pedra do Leme). Vê-se parte do rochedo em primeiro plano, com várias pessoas nele. Abaixo, as areias de uma praia e um mar azul escuro. Ao fundo, céu claro no horizonte e alguns prédios à esquerda.

Na verdade, estou de brinks, já aprendi a gostar do mar. Meu negócio é dar vontade em vocês com essas fotografias.

Radical Rebelde Revolucionário

quarta-feira, 16 \16\UTC julho \16\UTC 2008

Eu li vários livros ótimos no final de 2007 e início de 2008. Um desses livros é Radical Rebelde Revolucionário.

Permitam-me apresentar Alex Castro. Alex Castro é um blogueiro bastante conhecido que aprecio muito. Seus textos são bastante divertidos mas provocam poderosas reflexões, além de serem muito claros. Gosto especialmente de suas idéias, liberais e libertárias em um nível que eu nem imaginava possível antes de conhecer o blogue dele.

Liberal Libertário Libertino

Liberal Libertário Libertino

Alex Castro tem três livros publicados. Desses, apenas Liberal Libertário Libertino foi impresso em papel. Provavelmente esse é seu melhor livro, pois, ao que parece, é uma coletânea mais bem trabalhada das crônicas que podem ser encontradas no site dele. Essas crônicas, assim como as prisões, são textos deliciosos de ler, cheios de humor e elegância. São, também, manifestações de idéias poderosas sobre liberdade, capazes mesmo de mudar vidas.

Entretanto, ainda não comprei Liberal Libertário Libertino porque priorizei os dois outros livros: Onde Perdemos Tudo e Radical Rebelde Revolucionário.

Onde Perdemos Tudo é uma coletânea de contos. Confesso que não gostei deste livro. Achei os contos fraquinhos e um tanto quanto pretensiosos, repetitivos e explícitos demais. Entretanto, talvez você queira dar uma chance ao livro: muita gente gostou dos contos, não seria justo confiar apenas no meu gosto. Confira os contos A Porta e A Morte do Meu Cachorro e tire suas conclusões. Dê uma olhada também em algumas resenhas.

Radical Rebelde Revolucionário é outra história. Esse insólito livro é o resultado de uma viagem de Alex Castro para Cuba. Ocorre que autor é, no momento, um mestrando na Tulane University em Nova Orleans, e sua pesquisa é sobre a escravidão na literatura latino-americana. Ele conseguiu financiamento para viajar para Cuba para aprofundar sua pesquisa. Ele foi lá, pesquisou, se divertiu pacas e, de quebra, escreveu o livro.

A primeira grande qualidade de Radical Rebelde Revolucionário é que não é um panfleto. Alex Castro é um livre pensador, e seu livro não é uma série de descrições e argumentos tentando provar que Cuba é um estado stalinista ou uma nação democrática. A Cuba de Alex Castro é humana, não ideológica. Ele não toma lado nenhum (embora ele pareça ter uma leve simpatia pelos socialistas) e observa não o ícone (do Mal ou do Bem), mas sim o país real, com seu povo, seus problemas e – por que não? – suas soluções.

Radical Rebelde Revolucionário

Radical Rebelde Revolucionário

Não bastasse ser um livro não dogmático, é uma delícia de ler. As crônicas são fluentes e muito, muito divertidas. As histórias sobre jineteiros, as peripécias do malandro Cándido, a sensualidade da bibliotecária Dolores, as descrições de tudo isso são de um humor único, quase escrachado mas extremamente realista.

Acima de tudo, Radical Rebelde Revolucionário é vivo. Lendo o livro, você quase pode vislumbrar os acontecimentos ocorrendo ali, na sua frente. Quando li a crônica que disserta, dentre outras coisas, sobre o caráter sorvetístico dos cubanos, tive de sair para comprar uma casquinha. Estou feliz por não ter me tornado fumante ao final do livro, como resultado da descrição fascinante e fascinada da indústria de charutos cubanos!

Vale destacar, porém, que o livro não foge de questões políticas, sociais e econômicas. A pobreza da ilha é bem retratada, a falta de democracia não é ignorada, problemas de abastecimento são uma constante e um lamento pela falta de dignidade da vida do cubano permeia a obra. Do mesmo modo, Alex Castro percebe em Cuba o resultado de uma revolução real, não a troca de uma elite por outra, e fascina-se com o exótico espetáculo de um país sem ricos nem miseráveis, mas só com pobres. Dada essas observações, não é de se admirar que o autor foi considerado castrista pelos anticastristas e anticastrista pelos castristas. Isso, por si só, já contaria muitos pontos para a obra.

De qualquer forma, ao menos para mim, o autor parece pouco interessado nas grandes questões políticas e sociais. Seu objetivo é entender os cubanos, seus hábitos, tradições, arte e cultura. E é isso que torna o livro inestimável: em uma zeitgeist onde Cuba é bandeira de praticamente qualquer movimento político, é reconfortante saber como são as pessoas reais desse país estranhíssimo.

Enfim, reitero minha sugestão: compre e leia o Radical Rebelde Revolucionário! Vai ser um dos melhores e mais agradáveis livros contemporâneos que você vai ler.


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