Archive for the ‘Poesia’ Category

O Arqueólogo

sábado, 15 \15\UTC outubro \15\UTC 2011

Trecho de uma placa de barro claro com escrita cuneiforme em colunas

Nabucodonosor ajoelhado

observa tensamente sobre a terra

um bloquinho de argila já secado

– ou melhor, só a ponta. Desenterra

o resto da plaquinha com cuidado

pois sabe que este barro duro encerra,

em marcas já não tão bem definidas,

palavras há milênios esquecidas.

Com medo de causar-lhe dano, escava

a tábua, que lhe impinge um outro medo:

que poder tem o texto que gravava

o escriba muitos séculos mais cedo?

É uma maldição tremenda e brava

que está escrita ali? Ou um segredo

sombrio, poderoso e moribundo

numa língua banida deste mundo?

Seria a voz de Anu, o poderoso,

sobre a argila úmida prensada?

A dor de um Dumuzi lamurioso

morrendo pela Inana namorada?

Os versos dedicados pelo esposo

escriba para sua idosa amada

gravados meios displicentemente

durante um mais tranquilo expediente?

Talvez seja a história de Sargão

saindo lá de Acade, a sua terra,

levando seu império em direção

ao Mar Vermelho através da guerra,

criando um reino cuja imensidão

antes não teve igual em toda a Terra

– mas que era tão pequeno comparado

ao do rei que escavava o barro assado…

E assim, temente como os velhos sábios,

mas empolgado como uma criança,

Nabucodonosor abria os lábios

num riso de feliz desconfiança.

Que sensação feroz os alfarrábios

perdidos lhe causavam, que esperança!

Igual só sentiria o escavador

das placas de Nabucodonosor.

Fotografia preto e branco em tons de sépia. Hormuzd Rassam, utilizando turbante listrado, barba e bigode, reclinado sobre cadeira e vestido à moda otomana.

De um livro a outro

segunda-feira, 8 \08\UTC novembro \08\UTC 2010
Livro "Orgulho e Preconceito"

Orgulho e Preconceito

Terminei de ler Crime e castigo esta semana e comecei a ler Orgulho e preconceito. O efeito de começar a ler o livro de Jane Austen depois do de Dostoiévski é semelhante ao de sair de um quartinho escuro de São Petersburgo diretamente para os campos verdejantes de Hertfordshire: os olhos ardem com a luminosidade exagerada.

Crime e castigo é um livro forte, dramático, triste, tenso; esperava aliviar a tensão do livro lendo algo mais leve. Orgulho e preconceito é um livro suave e divertido, então foi o candidato natural, mas não dá. Lê-lo agora me dá vontade de matar Miss Bennet a machadadas. Jane Austen me conquistou com a primeira página deste livro – mas não estou em condições de lê-lo.

Moby Dick

Vou ler algo intermediário. Talvez Moby Dick, talvez O vermelho e o negro (sobre o que não sei nada, mas não pode ser tão triste quanto minha leitura anterior nem tão feliz quanto minha leitura atual). Talvez reler algo, como Morro dos Ventos Uivantes, que marcou minha adolescência, ou Coração das Trevas, que não compreendi bem. (Sim, Crime e Castigo é ainda mais triste que estes livros.) Ademais, essa semana ganhei meu terceiro Os Lusíadas; é possível que seja um recado para eu lê-lo e passar do canto quinto. Ou para devolver o volume que peguei de uma biblioteca.

PS: todos os livros citados, incluindo Os Lusíadas, fazem parte desta coleção da Editora Abril, que recomendo enfaticamente, mesmo sem receber nada por isso. Você fica revoltado porque o presidente do Brasil não tem cultura? Então comece a adquirir cultura você mesmo! De quebra, ainda vai suportar a Veja.

O protesto do ipê

domingo, 17 \17\UTC outubro \17\UTC 2010
Os ipês em Brasília, tão sisudos
que passam quase o ano todo mudos,
fiscalizam o clima da cidade
com sua verdolenga austeridade.
Sua seriedade é tão pesada
que, quando a chuva flui e é festejada
pelas plantas, que riem se florindo,
o ipê se fecha, só verde emitindo;
mas quando chega a seca e as folhas caem,
as folhas do ipê também se esvaem
mas mesmo assim caçoa da secada
flora numa dourada gargalhada.
Mas este ano a chuva permanece!
a árvore verdeja! a grama cresce!
e, como a seca não se apresenta,
floresce o arbusto tanto quanto aguenta.
Pobre ipê! Pois a festa continua
na época que já fora só sua;
e ele só consegue, bravo e belo,
protestar em um tom verde-amarelo.

Sobre a infanticida Maria Farrar

segunda-feira, 22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2010
Maria Farrar, nascida em abril,
menor, sem sinais particulares, raquítica, órfã,
sem qualquer condenação anterior ao que se julga,
é acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma:
Conta ela que já no segundo mês
em casa de uma mulher, num sótão,
tentou expulsá-lo com duas injeções
dolorosas, como se calcula, mas não saíu.
Não se indignem por favor,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Assegura contudo, ter pago de imediato
o estipulado, ter continuado a apertar a cintura,
ter também tomado aguardente com pimenta moída,
o que apenas serviu de forte purgante.
O corpo estava inchado e sentia também
dores frequentes quando lavava os pratos.
Estava ainda em idade de crescer, segundo ela própria dizia.
Rezou à Virgem Maria com muita fé.
a vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
As orações, ao que parece, não serviram de nada.
Pedia-se demasiado. Quando já estava mais cheia
sentia vertigens durante a missa. Suava muito.
E também suava de medo, com frequência, diante do altar.
Mas fez segredo sobre o seu estado
até ser surpreendida pelo nascimento.
Isto resultou, pois ninguém pensava
que ela, tão pouco atraente, pudesse ser presa de tentação.
E também a vós, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Nesse dia, diz, bem cedinho,
estando a limpar as escadas, sentiu como que umas unhas
a arranhar-lhe o ventre. A dor
sacudia-a, mas conseguiu manter-se calada.
Todo o dia, enquanto estendia a roupa que lavou,
pensou e tornou a pensar, até se dar conta,
de coração apertado, que tinha mesmo que parir.
Só tarde subiu para o quarto.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Quando estava deitada, vieram chamá-la;
tinha nevado e teve que varrer.
O trabalho durou até às onze. Foi um dia bem longo
Só pela madrugada pôde parir em paz.
Conta ela que pariu um filho.
O filho era igual aos outros filhos.
Mas ela não era como as outras, embora…
Não há motivo para brincadeiras.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Assim, pois, deixemo-la contar
o que sucedeu com este filho
(diz ela que não quer esconder nada)
para que se veja como somos.
Diz que ficou pouco tempo na cama
angustiada e sozinha;
sem saber o que aconteceria a seguir
obrigou-se a conter com esforço os gritos.
A vós também, peço que não se indignem
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Como o quarto também estava gelado,
segundo diz, arrastou-se com as últimas forças
até à latrina e ali
(quando, já não se recorda) pariu
sem ruído até ao amanhecer.
Estava, diz ela, muito perturbada nesse momento,
já meio entumescida, mal podia segurar o menino
prestes a cair na latrina dos criados.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Então, quando ia da retrete para o quarto
– antes, diz ela, não aconteceu nada – a criança
começou a gritar. Isso afligiu-a tanto
que se pôs a bater-lhe com os dois punhos,
cega sem parar até a criança ficar quieta.
Então, levou o morto
consigo para a cama durante o resto da noite
e pela manhã escondeu-o na lavandaria.
A vós também, peço que não se indignem,
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.
Maria Farrar, nascida em abril,
falecida na prisão de Meissen,
mãe solteira, condenada,
quer mostrar-vos os crimes de todo o ser humano.
Vós que paris sem complicações em lençóis lavados
e chamais “bendito” ao vosso ventre prenhe,
não condeneis estas infames fraquezas
porque, se o pecado foi grave, o sofrimento também foi grande.
Por isso peço que não se indignem
pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

Navegando pelo Obvious, encontrei esse vídeo. Para mim, foi muito abstrato, mas fiquei curioso sobre quem seria Maria Farrar. Procurando mais, encontrei o poema de Bertolt Brecht aqui.

 

Não sei o quanto eu concordaria com Brecht – nunca o li consistentemente – mas concordo com qualquer um que diga que ele é um gênio da poesia.

Update: o vídeo é obra do pessoal do Balaio Variado.

Hermes Aquino e a nuvem passageira

sexta-feira, 16 \16\UTC outubro \16\UTC 2009

Eu trabalho no anexo de um ministério. Por vezes, tenho de ir para o prédio principal do ministério, passando por um corredor. Curiosamente, toda vez que passo pelo corredor, ouço a música Nuvem Passageira, de Hermes Aquino. Isso é perturbador…

A despeito disso, adoro essa canção. A letra, em especial, é um poema muito interessante. Achei a idéia de caçoar da própria efemeridae tão ousada quanto bem implementada.

Eu sou nuvem passageira que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito e a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber do que fazer, vou me matar
Eu vou deixar um dia a vida e a minha energia sou um castelo de areia na beira do mar…

Jornal de Poesia

segunda-feira, 15 \15\UTC junho \15\UTC 2009

Usei a Internet pela primeira vez na Escola Técnica de Brasília. Eu estava fascinado pelo novo universo das interwebs. O grande guia, para mim, à época, era o antigo Cadê?. Devo agradecer ao Cadê? por me permitir conhecer o maravilhoso, esplêndido, fascinante, vitaminado e indispensável Jornal de Poesia.

Este site possui textos de mais de mil poetas que escrevem em português, incluindo obras completas de autores como Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos. Além disso, o site também tem aquele visual de páginas de 1996 – que é charmoso nas páginas que realmente são de 1996, como é o caso.

Então, se você gosta de poesia, que espera? Visite o Jornal de Poesia agora mesmo! Eu, que há quase dez anos o conheço, não canso de me surpreender…

O cão do ausente

quarta-feira, 13 \13\UTC agosto \13\UTC 2008

Você foi, para mim, tão importante

que eu não podia nem pensar em nada

sem lembrar de você, que estava em cada

pedaço do meu pensamento amante.

Separei um espaço tão gigante

da minha vida para a minha amada

que quase já não importava nada

mais para minha alma festejante.

Mas você foi-se, e a alma que sorria

minguou em compridíssima agonia

e o amor murchou de dor e de revolta.

Mas – ah! – o espaço ainda está guardado

no meu coração morto e consternado

qual cão que espera o dono que não volta…

2005

A maldição do soneto

quarta-feira, 7 \07\UTC maio \07\UTC 2008

Desesperadamente, linha a linha,

escrevo os versos desse meu poema

tentando aliviar a dor mesquinha

que violentamente a mim se algema,

pois cada verso é um guia que encaminha

um pouco dessa depressão extrema

ao mundo lá de fora e que da minha

cabeça tira um pouco do problema.

Verso a verso, eu expulso lentamente

dor, rancor, solidão, ódio, tristeza

da minha mente tristemente presa.

Mas de que vale, se da minha mente,

de tantos sofrimentos tão perversos,

só posso aliviar quatorze versos?


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