Archive for the ‘História’ Category

O Arqueólogo

sábado, 15 \15\UTC outubro \15\UTC 2011

Trecho de uma placa de barro claro com escrita cuneiforme em colunas

Nabucodonosor ajoelhado

observa tensamente sobre a terra

um bloquinho de argila já secado

– ou melhor, só a ponta. Desenterra

o resto da plaquinha com cuidado

pois sabe que este barro duro encerra,

em marcas já não tão bem definidas,

palavras há milênios esquecidas.

Com medo de causar-lhe dano, escava

a tábua, que lhe impinge um outro medo:

que poder tem o texto que gravava

o escriba muitos séculos mais cedo?

É uma maldição tremenda e brava

que está escrita ali? Ou um segredo

sombrio, poderoso e moribundo

numa língua banida deste mundo?

Seria a voz de Anu, o poderoso,

sobre a argila úmida prensada?

A dor de um Dumuzi lamurioso

morrendo pela Inana namorada?

Os versos dedicados pelo esposo

escriba para sua idosa amada

gravados meios displicentemente

durante um mais tranquilo expediente?

Talvez seja a história de Sargão

saindo lá de Acade, a sua terra,

levando seu império em direção

ao Mar Vermelho através da guerra,

criando um reino cuja imensidão

antes não teve igual em toda a Terra

– mas que era tão pequeno comparado

ao do rei que escavava o barro assado…

E assim, temente como os velhos sábios,

mas empolgado como uma criança,

Nabucodonosor abria os lábios

num riso de feliz desconfiança.

Que sensação feroz os alfarrábios

perdidos lhe causavam, que esperança!

Igual só sentiria o escavador

das placas de Nabucodonosor.

Fotografia preto e branco em tons de sépia. Hormuzd Rassam, utilizando turbante listrado, barba e bigode, reclinado sobre cadeira e vestido à moda otomana.

Primavera Árabe

sexta-feira, 3 \03\UTC junho \03\UTC 2011

Estou fazendo um curso sobre Relações Internacionais na plataforma Trilhas do Instituto Legislativo Brasileiro. Tive de participar de um fórum sobre a Primavera Árabe. O texto ficou grande, mas não sei se está bom e certamente está desatualizado. De qualquer forma, como deu um belo trabalho que quero publicar coisas aqui, ei-lo.

Possíveis causas

As manifestações populares contra governos autoritários no Oriente Médio árabe exemplificam bem as complexidades inerente ao estudo das relações internacionais. Mesmo sendo o Oriente Médio uma região de valor estratégico e, portanto, um objeto de inúmeros estudos pormenorizados, a chamada Primavera Árabe foi uma surpresa tanto para os governantes dos países quanto para os atores internacionais estrangeiros.

Um fator frequentemente apontado como causa dos eventos foi a disponibilidade de softwares online para redes sociais que permitiriam que os protestos fossem organizados. Embora pareça justo atribuir um papel considerável à Internet nas revoluções, seja como meio de comunicação dos organizadores, seja como fonte de informação política, eu me alinho aos analistas que julgam este papel exagerado. Em que pese todas as vantagens de se organizar uma revolução utilizando ferramentas modernas, já houve reviravoltas tão amplas sem tanto suporte tecnológico, como a queda do Comunismo na Europa Oriental e a Primavera dos Povos em 1848.

O combustível dos protestos, eu diria, é a existência de uma classe média jovem, bem educada e sem perspectivas. Assim, não é de se surpreender que a onda de mudança surgisse justamente na Tunísia, um país com população relativamente bem educada, e seguisse para o Egito. A faísca que estourou as revoltas, como sabemos, foi o suicídio do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi que explicitou a insatisfação popular que já existia, mas cuja repressão levou a se esconder. Sua atitude o tornou um mártir da causa.

As alianças com o Atlântico Norte e seu efeito sobre os regimes

Também é notável que as revoluções – e as quedas – tenham começado e obtido maior sucesso na Tunísia e no Egito. Os governantes depostos destes países mantinham boas relações – e até alianças – com as potências do Atlântico Norte. Há quem comente que, justamente por isto, estas nações tenham sido mais reticentes em esmagar as revoltas. Estados Unidos e Europa, assim, seriam o superego destes ditadores, impedindo que manifestem a violência vista em países fora deste eixo, como Síria e Líbia.Por outro lado, esta tese falha quando nos lembramos que o governo do Bahrein, importante aliado dos EUA onde fica a sede da frota americana no Oriente Médio, tem combatido os protestantes com violência não muito diversa da vista na Síria, inclusive com apoio de soldados sauditas.

É possível que o custo de se abrir mão do governo aliado no Bahrein fosse muito maior, na perspectiva das potências ocidentais, do que o custo de dispensar Hosni Mubarak, que fora até reticentemente apoiado pelos líderes estadunidenses. É compreensível: o Egito não possui um movimento fundamentalista forte, tem uma população diversificada e o Exército egípcio seria o fiel da balança a garantir estabilidade e um mínimo de laicidade ao estado; além disto, estrategicamente sua importância é grande mas menor que a de outros países na região. Nesse contexto, a queda de Hosni Mubarak é um evento sem grandes riscos. Além disto, não obstruir sua queda permitiria às potências ocidentais ressaltar sua imagem de defensores da democracia.

Já o Bahrein, além de ser estrategicamente bem localizado próximo do Irã, já possuir pesados investimentos militares dos americanos e ainda estar em área de forte influência Irã, tanto pela proximidade quanto por sua maioria populacional xiita, seria um aliado muito mais valioso para os Estados Unidos – a ponto da potência fazer vistas grossas ao abuso dos direitos humanos.

As perspectivas de Israel

Dos países não abalados diretamente pela Primavera Árabe, o mais afetado e mais apreensivo é Israel. A pequena potência do Oriente Médio viu um dos seus raros aliados na região, Mubarak, cair, e não sabe o que esperar do Egito. Sua preocupação é tanta que, no início das revoluções, seu primeiro-ministro chegou a criticar os Estados Unidos por não dar apoio ao ditador egípcio. Provavelmente Bahrein também é alvo de sua aflição, posto que a queda do governo atual aumentaria as possibilidades de influência do Irã.

Mesmo as dificuldades que Assad vêm passando podem ser negativas para a nação judaica. Embora a Síria esteja, em tese, em guerra com Israel, Assad se mostrou um governante relativamente transigente – houve avanços em negociações com Israel, e até início de negociações de paz mediadas por terceiros em seu governo. Mesmo que Assad não se mostre um aliado de Israel e seja até mesmo hostil, não se sabe quem poderá subir ao poder em seu lugar.

(Embora a Síria seja constantemente descrita como um aliado do Irã, o relacionamento do governo sírio com o país persa é muito mais conturbado. Algumas fontes que leio, como Gustavo Chacra, afirmam que interesses comuns podem levar as duas nações a ações conjuntas, mas a Síria tem seus interesses próprios, por vezes conflitantes com os dos aiatolás. Se assim não fosse, o relacionamento com Israel seria muito pior, e Assad não tentaria passar a imagem de governante laico moderado para o Ocidente. Com a queda do médico autocrata, a influência iraniana na Síria poderia ser bem maior – ou não, mas a política externa realista de Israel não parece estar disposta a fazer esta aposta).

O conflito na Líbia

Os levantes na Líbia, por sua vez, parecem seguir um padrão diferente. Ao contrário do que ocorrem no Egito, Tunísia etc. os protestos começaram aparentemente da mesma maneira que nestes países mas a repressão violentíssima de Kadafi acabou resultando em uma guerra civil. (Quando vi que os protestos “pularam” da Tunísia para o Egito, perguntei-me por que não passaram pelo país aí entre os dois – e depois me lembrei que era a Líbia, ainda mais repressiva. Ao saber que os protestos estouraram lá também, senti certa tristeza, porque sabia que não terminariam sem muito derramamento de sangue – e que os manifestantes teriam de terminar o que começaram, sob pena de morrerem todos).

A Líbia é um país um tanto diferente dos demais. Sua população é dividida em tribos, que se aliam ou se confrontam entre si. Quando as manifestações começaram, algumas tribos viram a oportunidade para tentar derrubar Kadafi, e por isto a situação degenerou em guerra civil.

As potências do Atlântico Norte ficaram um tanto confusas sobre o que fazer, até decidirem intervir. O posicionamento mais curioso, para mim, foi o da França de Sarkozy, que chegou ao ponto de reconhecer as forças rebeldes ainda fracas como governo legítimo da Líbia. A própria intervenção dos outros países, porém, levanta uma série de questões. Primeiramente, retiraria ela a legitimidade dos protestos? Uma intervenção estrangeira poderia servir como evidência para o discurso kadafista de ingerência internacional.

Ademais, se a intervenção é apenas para impedir crimes de guerra, os interventores não estarão alinhados aos rebeldes. E se os rebeldes forem derrotados, como os países que intervieram iriam lidar com Kadafi, que tem longo histórico de suporte a causas terroristas, inclusive várias não direta ou claramente alinhadas com seus interesses? Por sinal, eu chuto (e aqui o chute é pessoal, não li isso realmente) que é possível Kadafi chegar a um acordo com os rebeldes, o que pode trazer bastante dor de cabeça às nações que intervieram.

Enfim, o conflito líbio tem um perfil diferente das demais revoluções árabes, e tem causado bastante transtorno às potências ocidentais. Seu desfecho é o menos previsível de todos, pois podem ser vários.

As compras na mercearia comunista

sábado, 20 \20\UTC março \20\UTC 2010
Manuel Zelaya, de chapéu e jaqueta, com seu característico bigode

Manuel Zelaya

Eu fiquei feliz com o desfecho do golpe hondurenho de 2009: o avanço do chavismo foi detido mas a mensagem de que golpes de Estado não são mais bem-vindos na América Latina foi dada. Entretanto, parece que os eventos não foram a tragédia de Tchecov que eu imaginava, pois há  problemas sérios no país.

Os partidários de um ou outro lado acusarão Zelaya ou Micheletti e Lobo furiosamente: uns dirão que Zelaya foi o maior problema de Honduras; outros, que o maior problema de Honduras foram os golpistas. Entretanto, o problema é mais profundo: é não ter alternativas a nenhum dos dois. Nada é pior para um país do que ter de escolher entre um Zelaya e um golpe.

Hugo Chávez, de camisa amarela, saudando a multidão, com vários seguranças

Hugo Chávez

É o mesmo problema que assola a Venezuela. Hugo Chávez é um presidente incompetente e autoritário, com histórico golpista. Entretanto, foi eleito democraticamente em 1998 e vítima de golpe fracassado em 2002. Posteriormente, Chávez expandiu seu poder grandemente, tornando-se cada vez mais autocrático. O mal venezuelano, porém, não é Chávez ou sua oposição golpista, mas sim o fato de só Chávez e oposição golpista terem relevância política na Venezuela.

Se as afirmações de algumas pessoas forem verdadeiras, podemos dizer que esse era também o mal do Brasil nos anos 60. Há quem julgue que, nessa década, o país estava na iminência de uma tomada de poder por comunistas; o golpe de 1964 seria uma resposta ao comunismo. Não entrando no mérito da veracidade da versão, o fato é que um país dividido entre um ou outro regime de exceção é um país condenado.

José Sarney, de óculos e terno cinza

José Sarney

Até hoje podemos ver isso perto de nós. Quantos brasileiros reclamam do poder do clã Sarney? Muitos, certamente. Entretanto, o oponente que conseguiu tomar o poder da família em seu território não era lá grandes coisas, também, e foi deposto. Por isso, não é razoável torcer apenas para que os Sarney saiam do poder; é preciso criar alternativas sólidas o suficiente para enfrentá-los. Como elas não surgem no Maranhão, o estado fica sob controle da oligarquia.

Portanto, se você espera que o ambiente político mude, seja em Honduras, Cuba, Maranhão ou Distrito Federal, não basta procurar derrubar os déspotas e os corruptos apoiando tacitamente seus opositores. É preciso desenvolver alternativas, colocar algo melhor no lugar. Quem reclama deve estudar, buscar melhores alternativas e até se candidatar, se as alternativas existentes são mais do mesmo. Isso envolve muito mais esforço e mãos sujas do que apenas reclamar, mas é necessário. Enquanto não houver alternativas, substituir os governantes será como escolher entre o café e o chá horríveis do mercado comunista: muda-se a bebida quando se devia mudar o sistema.

Apocalypto

quinta-feira, 24 \24\UTC setembro \24\UTC 2009
Cartaz de Apocalypto

Cartaz de Apocalypto

Depois de anos sendo o cara esquisito das rodas de amigos, resolvi adotar hobbies menos exóticos: fui a uma locadora perto de casa e abri uma conta. Para estrear minha vida cinéfila, escolhi Apocalypto. Estava querendo ver o filme há um bom tempo – e minhas especitativas foram satisfeitas.

Apocalypto é um filme visual. As paisagens conseguiam transmitir todas as sensações: medo, coragem, destruição, manipulação. As cenas eram não só expressivas, mas também belíssimas e bem feitas. Algumas decisões polêmicas – como misturar aspectos culturais de diversas épocas da cultura maia – foram tomadas para deixar o filme mais exuberante; o objetivo foi alcançado.

O enredo não deve nada ao visual. A história do caçador perseguido pelos soldados do império é fascinante. O filme consegue prender a atenção. Felizmente, faz isso sem exageros: há muito drama e muita ação, mas não mais do que deveria haver. Quem tivesse assistido o ótimo The Passion of the Christ poderia esperar um filme muito carregado, mas não encontrará isso: o pesado drama foi uma ótima escolha em  The Passion of the Christ, mas Apocalypto é outra categoria de filme. Ademais, uma história sobre pré-colombianos dificilmente encontraria backgroud suficiente nos espectadores para emocioná-los tanto quanto a Paixão de Cristo poderia fazer. Se houvesse tanto drama, o filme seria apenas meloso, como são, por exemplo, os filmes de Spielberg.

Os personagens não deixam nada a desejar. Suas motivações, atos, opiniões são convincentes. O espectador sente empatia por eles. Como o filme não possui europeus, eles já não poderiam ser vilões esquemáticos (como temia-se). Os maias são antagonistas, mas definitivamente não são personagens superficiais: seus dramas, atos e opiniões também geram empatia.

Como em The Passion of the Christ, o aspecto mais ousado do filme é o idioma. Apocalypto é falado no dialeto iucateque de maia. A escolha foi muito boa: embora não se possa entender as falas, o idioma cria clima também. Não tive esta sensação (leia todo). Talvez porque tenha sido um filme feito por anglófonos: os atores pareciam falar maia com uma entonação inglesa. É verdade que a legenda distraía o espectador, que via menos dos cenários. Afora isso, porém, foi uma escolha interessante e ousada, e achei que deu certo.

Acredito, porém, que erraram um pouco a mão ao falar da religião maia. O filme deixa claro que a religião maia é um instrumento de controle do povo – especialmente dados os problemas que os maias estavam encarando e viriam a enfrentar. A tese em si, não me incomodou; pelo contrário, foi uma ideia boa. Entretanto, ficou explícito demais. Acredito que, se tivessem apresentado com sutileza, ficaria mais elegante.

O filme teve também suas polêmicas. Por exemplo, alguns historiadores afirmam que os maias não eram tão afeitos a sacrifícios humanos: este seria um aspecto da cultura asteca. Richard Hansen, o especialista que prestou consultoria à produção, responde que, durante o período, houve uma grande influência da cultura asteca sobre os maias. De qualquer forma, segundo alguns pesquisadores, os imolados eram geralmente membros da elite, não escravos – que, por sua vez, talvez não fossem tão comuns.

Houve quem visse no filme uma defesa da colonização espanhola. Segundo estes, o filme transmitiria a idéia de que os maias eram tão selvagens que precisavam do socorro europeu. Sinceramente, isto não faz sentido: em nenhum momento os europeus eram apresentados como salvadores. Pelo contrário: durante todo o filme, vê-se sinais claros de que uma maldição se aproximaria – e esta maldição eram os conquistadores.

Sumarizando, o filme é muito bom. Lamentavelmente, não o vi no cinema: um filme visualmente espetacular, como esse, merece ser visto na telona. Recomendo, porém, que ainda assim o assista: é um dos melhores filmes que já vi.

James Harden-Hickey e a Ilha da Trindade

sexta-feira, 28 \28\UTC agosto \28\UTC 2009

A Ilha de Trindade é uma pequena ilha vulcânica no Oceano Atlântico, a maior do arquipélago de Trindade e Martim Vaz. Território brasileiro, faz parte do município de Vitória, a capital do Espírito Santo. Embora não tenha habitantes permanentes, sedia o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, mantido pela Marinha do Brasil.

Além disso, a Ilha de Trindade foi o palco da maior cartada de James Harden-Hickey.

Fotografia da Ilha da Trindade

Fotografia da Ilha da Trindade

James Harden-Hickey foi um franco-estadunidense com gosto por aventura. Nascido em 1854, em São Francisco, Califórnia, mudou-se ainda criança para Paris. O ambiente esfuziante de Paris fascinou o jovem James, que adquiriu gosto pela pompa. Foi aluno dos jesuítas da Bélgica, estudou Direito na Universidade de Leipzig e formou-se, em 1875, na Academia Militar de Saint-Cyr. Alguns anos depois, casou-se com a Condessa de Saint-Pery, com quem teve duas crianças. Era um grande espadachim e escrevia romances.

Monarquista ardoroso, meteu-se em diversas confusões na França da Terceira República. Entre 1876 e 1880, já havia publicado mais de dez romances, todos monarquistas e antidemocráticos. Por seu apoio à Igreja, ganhou o título de barão do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1878, tornou-se editor do Triboulet, um popular jornal antirrepublicano que lhe rendeu vários duelos, processos e multas. Em 1887, porém, o jornal fecha, por falta de verba.

Nessa época, James havia mudado. Divorciou-se da condessa, afastou-se do catolicismo e se dedicou ao budismo e à teosofia. Viajou pela Índia e Nepal, aprendeu sânscrito e se casou com uma filha de Henry Flagler, um dos donos da Standard Oil. Sua maior empreitada, porém, viria um pouco depois:

Em 1893, James Harden-Hickey decidiu se tornar James I, Príncipe de Trindade.

Harden-Hickey planejava colonizar a Ilha de Trindade e torná-la uma nação soberana. Trindade, a nação, seria uma ditadura militar governada por ele mesmo.  Em 1893, o jornal New York Tribune publicou uma reportagem de capa sobre o novo príncipe.

Bandeira do Principado de Trindade

Bandeira do Principado de Trindade

James seguia trabalhando: desenhou selos, uma bandeira e um brasão. Comprou uma escuna para trazer colonizadores. Abriu um escritório consular em Nova Iorque e até emitiu títulos de governo do novo estado.

Em 1895, porém, tropas inglesas tomaram a ilha. A Inglaterra planejava construir um cabo subterrâneo até o Brasil e usaria a ilha como posto. A ilha passou a ser disputada por Brasil e Inglaterra. James tentou ainda “lembrar” a todos de quem era o real soberano da ilha: seu secretário de Estado, Conde de la Boissiere, começou a agir. Entrou em contato com o secretário de Estado americano, Richard Olney, a quem pediu o reconhecimento da soberania de Trindade. Olney então encaminhou a carta do conde aos jornais novaiorquinos, que se esbaldaram: o conde tornou-se motivo de piada.

Brasão de armas do Principado de Trindade

Brasão de armas do Principado de Trindade

Diz-se que Harden-Hickey ficou tão irritado que apresentou a seu sogro um plano para invadir a Inglaterra através da Irlanda. Obviamente, Flagler rejeitou a idéia. O “príncipe sem país” ainda tentou obter recursos vendendo um rancho que possuía, no México, mas não conseguiu angariar fundos suficientes.

No final, a Ilha de Trindade ficou sob domínio do Brasil. James Harden-Hickey, defensor da eutanásia, entrou em depressão e, em 1898, cometeu suicídio em um hotel em El Paso, Texas, através de uma overdose de morfina. No seu espólio, havia uma carta de despedida para sua esposa e lembranças de suas aventuras, incluindo a coroa que havia encomendado.

James Harden-Hickey foi um desses personagens inacreditáveis, cuja história é intensa e tragicômica, bem ao estilo do século XIX. Se quiser saber mais sobre tal figura, veja este artigo.

Cinismo e Hipocrisia

domingo, 10 \10\UTC maio \10\UTC 2009

Eu pensava que cínico era, basicamente, um arrogante sarcástico e blasé. O hipócrita era mais simples: a pessoa que esconde as opiniões e sentimentos para evitar conflito ou angariar benesses. Dessas duas visões, perdoe-me, não vi nenhum mais importante que o outro *globalmente*. A hipocrisia é importante para manter a civilização, com seus alcances, estável, mas o cinismo é importante para dar o próximo passo. A hipocrisia sozinha manteria a humanidade no chão; o cinismo solitário faria o homem dar pulinhos de um metro por toda a eternidade.

Aí fui olhar no dicionário e vi que cínico quer dizer mais “imoral” que “sarcástico”, e passei a confiar menos no dicionário…

WTF? O Dr. Plausível propôs essa pergunta, e resolvi tentar responder….

Valsa com Bashir

terça-feira, 28 \28\UTC abril \28\UTC 2009

Desde que li esse post em janeiro, estava ansioso para assistir Valsa com Bashir. Assim que foi lançado aqui em Brasília, assisti.

Poster de A Valsa com Bashir

Poster de Valsa com Bashir

Valsa com Bashir, ou Waltz with Bashir, é um documentário, feito em desenho animado, sobre o Massacre de Sabra e Sharita (mais aqui). O filme foi escrito e dirigido pelo cineasta israelence Ari Folman. Em verdade, o documentário é em grande parte autobiográfico: Folman participou da Guerra do Líbano de 1982. Segundo o filme, Folman não tinha lembranças da guerra, e só percebera isso quando um ex-companheiro de caserna lhe conta um pesadelo sobre o confronto. Curioso sobre a razão do esquecimento, ainda que temendo o que possa descobrir, Folman procura lembrar-se do que de fato ocorreu, juntando diversos depoimentos. À medida que avança, relembra cenas da guerra e descobre horrores das batalhas – culminando com um maior conhecimento do que ocorreu nos campos de refugiados, e no papel que ele mesmo teve, passivamente, nos massacres.

O filme é esplêndido. O traço e as cores são realistas, mas sem os detalhes que abundam nas animações 3D. Nâo precisa deles: o estilo dos desenhos é expressivo. O ponto alto do filme é a trilha sonora. Não consigo lembrar de algum filme que tenha feito uma escolha tão certa de músicas. Uma das razões pelas quais o filme me fascinou desde que vi o trailer foi a combinação perfeita entre música – punk rock, música popular israelense – e desenho.

Devo dar um alerta, porém: o filme é um documentário. Embora ele tenha uma carga artística rara em documentários, a estrutura do filme é ainda descritiva. O enredo do filme, embora possua uma história central, não é contínuo: a história salta entre cenas de guerras, entrevistas, delírios e pesadelos etc. Então, não espere um filme de guerra na forma tradicional.

O fato de ser um documentário permitiu ao filme apresentar inúmeras histórias bastante interessantes. Além disso, as diversas entrevistas, altamente subjetivas, permitiram que o diretor apresentasse cenas desde já antológicas, como a cena inicial dos cachorros e a dança citada no título.

Politicamente, o filme chega a ser bastante tranquilo, considerando a intensidade do tema. Alguns comentaristas vêem no filme uma propaganda israelense, o que me parece exagerado. Outros vêem uma conspiração alemã para aliviar a culpa pelo Holocausto, devido a várias referências, polêmicas, a Auschwitz – o que é ainda mais bizarro. Eu, no geral, vi no filme uma confusão honesta de um homem tentando compreender seu passado. É mais ou menos a mesma sensação que tenho ao ler posts do Pedro Dória sobre Israel: a busca da conciliação entre a Israel democrática e pluralista e o Estado desumano com um povo fraco, às vezes além dos limites legais. Entretanto, Folman é mais intenso: ao mesmo tempo em que sua confiança em Israel é clara, inegável, ele não se poupa de apontar para o massacre apoiado pelas tropas israelenses. Embora Gideon Levy tenha visto no filme uma propaganda que mostra o “lado bom” do exército, eu não vejo condescendência do diretor para com as tropas, ou com o Estado: certamente é um filme condescendente, mas com os jovens militares. Entretanto, isso não evita que o filme plante a pergunta na mente do espectador: até que ponto o soldado é responsável?

Além desses questionamentos, me veio mais um à mente. Certamente o estado israelense teve participação nos massacres, o que é vergonhoso e deve ser denunciado… mas por que ninguém nunca relembra a culpa dos cristãos libaneses, mais especificamente os falangistas? Esta questão, porém, é complicada, é História e talvez ficasse desconexa no filme. Agora, é hora de pesquisar por mim mesmo.

Pois bem, falei demais, e o filme é muito mais interessante. Só posso recomendar que assista. Para sentir um pouco do gosto, eis abaixo o trailer que me convenceu automaticamente a vê-lo:

Seis de agosto, um dia triste

quinta-feira, 7 \07\UTC agosto \07\UTC 2008

Ontem, dia seis de agosto, passou batido por mim, mas o Pedro Dória recordou o bombardeio Hiroshima, postando um link para um bom artigo (com imagens fortes) do 1001 Gatos de Schrödinger.

Obviamente, sou feliz pelos Aliados terem vencido a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, esses atentados são tristes não só pelo mal causado à população civil (como se não bastasse), mas porque a cada crime um país fica mais e mais parecido com estados genocidas como a Alemanha Nazista, o Japão Imperial ou a União Soviética, que também justificavam seus atos como a alternativa a um mal maior.

É triste saber que não há alternativas ao mal.


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