Archive for the ‘Pessoal’ Category

De um livro a outro

segunda-feira, 8 \08\UTC novembro \08\UTC 2010
Livro "Orgulho e Preconceito"

Orgulho e Preconceito

Terminei de ler Crime e castigo esta semana e comecei a ler Orgulho e preconceito. O efeito de começar a ler o livro de Jane Austen depois do de Dostoiévski é semelhante ao de sair de um quartinho escuro de São Petersburgo diretamente para os campos verdejantes de Hertfordshire: os olhos ardem com a luminosidade exagerada.

Crime e castigo é um livro forte, dramático, triste, tenso; esperava aliviar a tensão do livro lendo algo mais leve. Orgulho e preconceito é um livro suave e divertido, então foi o candidato natural, mas não dá. Lê-lo agora me dá vontade de matar Miss Bennet a machadadas. Jane Austen me conquistou com a primeira página deste livro – mas não estou em condições de lê-lo.

Moby Dick

Vou ler algo intermediário. Talvez Moby Dick, talvez O vermelho e o negro (sobre o que não sei nada, mas não pode ser tão triste quanto minha leitura anterior nem tão feliz quanto minha leitura atual). Talvez reler algo, como Morro dos Ventos Uivantes, que marcou minha adolescência, ou Coração das Trevas, que não compreendi bem. (Sim, Crime e Castigo é ainda mais triste que estes livros.) Ademais, essa semana ganhei meu terceiro Os Lusíadas; é possível que seja um recado para eu lê-lo e passar do canto quinto. Ou para devolver o volume que peguei de uma biblioteca.

PS: todos os livros citados, incluindo Os Lusíadas, fazem parte desta coleção da Editora Abril, que recomendo enfaticamente, mesmo sem receber nada por isso. Você fica revoltado porque o presidente do Brasil não tem cultura? Então comece a adquirir cultura você mesmo! De quebra, ainda vai suportar a Veja.

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Escrever para escrever

domingo, 5 \05\UTC setembro \05\UTC 2010
Atlas

Atlas carregando o globo

Adoro escrever algumas coisas. Por exemplo, gosto de escrever na Wikipédia. Também gosto de compor sonetos. Escrever textos técnicos também me agrada.

Por outro lado, escrever neste blog aqui não é tão prazeroso. Os textos são cansativos de compor, exigem muita pesquisa, muito esforço. Por vezes são sobre temas polêmicos, o que me obriga a tomar muito cuidado sobre o que falar. Geralmente, levo semanas, meses para escrever uma postagem maior.

Entretanto, esse enfado é uma das razões para manter este blog. Postar aqui só é cansativo porque me falta prática e coragem. Assim, escrever aqui é um exercício difícil que é praticado para se tornar fácil. Como a disciplina, só se aprende a escrever bem escrevendo, mesmo que mal. É preciso suar, mesmo quando se escreve, afinal.

Sobre uma moça siliconada

domingo, 8 \08\UTC agosto \08\UTC 2010

Vi na televisão a história uma moça que fizera vários implantes de silicone. Em minha opinião, ficou com seios grotescos, mas essa não é uma posição unânime, porque a moça fez sucesso com seu busto avantajado. De qualquer forma, em alguma das várias cirurgias a jovem acabou sofrendo uma infecção com alguma bactéria perigosa, colocando-a em risco de morte.

Muita gente comentaria sobre como, em certo sentido, a sociedade forçaria a mulher a fazer suas cirurgias. Não foi o pensei naquele momento: acredito e assumo que ela fez o que fez por vontade própria, provavelmente bem informada, assumindo os riscos. Também não quero comentar o programa, um freak show constrangedor, que apoiou as escolhas dela e, agora, explora a situação da moça. No final das contas, o programa provê apenas o que as pessoas – e a própria mulher – querem. O importante é que eu vi uma cena profundamente triste e humana.

Não foi a doença, em si, que me abalou. É triste mas muita gente fica doente, acontece. Não foi a própria moça que se submeteu ao risco? Já estou suficientemente insensível para isso. Não, realmente triste foi a entrevista: a moça comenta que está em uma situação difícil e que, quando sua saúde melhorar – um “quando” como um “se” eufemístico – irá reduzir os implantes, já queria fazer isso. De repente, ela se vira para o apresentador e, com a voz baixa e o olhar amedrontado, diz que espera que o Brasil continue amando-a, mesmo depois da redução.

Eu fiquei comovido ao ouvir isso. Ali havia muito medo, grande necessidade de afeto. Perguntei-me – ela fez as cirurgias para ser amada? Senti uma aflição e uma empatia estarrecedoras. Tive vontade de ir lá, abraçá-la e dizer que não seja por isso! estou aqui, eu a amo e agora melhor e pegue leve, ok?

Ademais, minha afetação intelectual se dissolveu. Eu sempre me achei muito culto e inteligente, mas já começara a me enjoar de pavonear minha intelectualidade: cansara de falar mal de novelas e programa de domingo a tarde, de funk e de tecnobrega. Ao ouvir a moça, isso se consolidou. Em um dos programas que mais detesto, vi uma pessoa, que tomaria como meu contrário, mostrando um estado tão humano que imediatamente desmontou minha arrogante caçoada.

Na verdade, isso não importa. Talvez eu devesse fazer alguma coisa. Sei lá, quem sabe mandar uma mensagem no perfil do Orkut da enferma, junto com montes de fãs que enviam clichês que dizem para confiar em Deus. Confesso que até para mim isso se parece com “descer muito”, mas a questão é justamente essa: eu nunca estive tão acima assim…

Medo

segunda-feira, 1 \01\UTC março \01\UTC 2010

Frequentemente, tenho medo.

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Não há razão para o medo; digo, nenhuma razão específica. Apenas sinto a contração do estômago, os calafrios sob a pele e um tremor de pernas. Há, sim, razão para o medo, mas a razão está sempre lá: a possibilidade da escolha errada, a irreversibilidade das atitudes, o risco no próximo passo. Eu devia sentir medo sempre.

Navios jogados à costa em uma tempestade

Navios jogados à costa em uma tempestade

Entretanto, não preciso parar por medo. O medo geralmente não é sinal de perigo – mas sim de ignorância. Para além do medo, alcancei mais, aprendi mais, produzi mais. Quando temo o próximo passo, ou o primeiro passo, lembro que posso mais do que imagino, e que os riscos podem valer a pena; assim, mesmo com medo, avanço. A perna de minha decisão caminha, trêmula, para o destino obrigatório. Minha mente pesa de pavor e sorri, como o halterofilista após superar seus limites.

Pôr-do-sol

Pôr-do-sol

Afinal, nem este visitante não é tão ruim se o anfitrião se impuser.

A terceira metade da verdade

segunda-feira, 16 \16\UTC novembro \16\UTC 2009

Certa vez, disse que até achava a Veja é uma boa revista, embora com alguns problemas. Meira da Rocha respondeu que entre os problemas estava

“inventar coisas que não aconteceram e colocar na boca de entrevistados coisas que eles não disseram”

Até concordo. Não sei quantos casos de distorção de fatos ou entrevistas houve na Veja – sei que houve alguns, mas não quantos. Estes casos, porém, não mudaram minha opinião. Estranhei isso: por que não achei a revista ruim, dadas as informações falsas? Se mente, por que ainda acho a revista interessante?

Bem, para começar, uma mentira não desqualifica um periódico. Li recentemente um livro chamado A História Verdadeira, (True Story, no original), a história de um jornalista que pôs informações falsas em uma reportagem de The New York Times Magazine, dentre outras coisas. Oras, eu não creio que The New York Times Magazine seja uma má revista; o que ocorreu foi um incidente isolado.

Entretanto, dizem, na Veja, as distorções são muito mais comuns. Não sei se são, mas isto não me abala. Mesmo que a mentira seja uma constante em uma publicação, não me sinto obrigado a desprezá-la.

Não espero que me apresentem os fatos exata e imparcialmente; na verdade, isso sequer é possível. Entretanto, coleto rascunhos de narrativas e opiniões, mesmo as meia-verdades. Unindo e comparando o que descubro, consigo uma versão mais rica que as coletadas.

Por exemplo, considere a alteração do marco regulatório de Itaipu. Na Veja, uma reportagem falava que o “Paraguai não pôs um centavo na usina.” Fui pesquisar e, de fato, o Paraguai não investiu dinheiro na usina. A surpresa é que o Brasil também não: empréstimos pagaram a obra, e a empresa Itaipu Binacional é quem os amortiza. Isto não encerra o debate, mas muda um aspecto importante dele. E descobri isso após ler uma informação que pareceu-me bem incompleta.

Então, se os fatos, sendo minimamente corretos, não são tão relevantes, o que torna uma fonte boa? Primeiro, a capacidade de prover dados “minimamente corretos“. Se a fonte me dá uma base para o próximo passo, já é suficiente. A relevância dos temas também é importante: uma reportagem tendenciosa sobre uma polêmica vale para despertar-me para a situação. A defesa bem feita de certas posições é outro trunfo; neste caso, a Veja está até bem servida, com colunistas como Roberto Pompeu de Toledo.

Também valorizo a boa apuração dos fatos. Por isso mesmo, acho a revista CartaCapital, com todos os seus problemas, melhor que Veja. Já assinei a primeira e as reportagens eram cheias de boa pesquisa. Na Veja, as matérias são muito opinativas e pouco referenciadas. Leio mais a Veja porque ela está disponível nos mercados, mas a CartaCapital, ao menos quando eu a assinava (idos de 2004), fazia um trabalho investigativo bem melhor.

Entretanto, não preciso dessas reportagens; não a ponto de comprá-las. Como a Veja é disponível gratuitamente, suas reportagens são suficientes para despertar minha pesquisa. Que minta, distorça ou omita, não me afeta tanto: a revista é apenas mais um pedaço de minha investigação pessoal. Coitado, isso sim, de quem a usa como fonte única…

Enfim, não me perturbo com as acusações. Não preciso que me digam a verdade; prefiro receber cada meia-verdade, para montar minha observação. Mas, e você? O que você acha?

Até!

Hermes Aquino e a nuvem passageira

sexta-feira, 16 \16\UTC outubro \16\UTC 2009

Eu trabalho no anexo de um ministério. Por vezes, tenho de ir para o prédio principal do ministério, passando por um corredor. Curiosamente, toda vez que passo pelo corredor, ouço a música Nuvem Passageira, de Hermes Aquino. Isso é perturbador…

A despeito disso, adoro essa canção. A letra, em especial, é um poema muito interessante. Achei a idéia de caçoar da própria efemeridae tão ousada quanto bem implementada.

Eu sou nuvem passageira que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito e a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber do que fazer, vou me matar
Eu vou deixar um dia a vida e a minha energia sou um castelo de areia na beira do mar…

Quem é quem na briga do bar

segunda-feira, 12 \12\UTC outubro \12\UTC 2009

Certa vez, fui detido por engano; à época, tinha dezesseis anos e morava na periferia de Taguatinga. Estava em um quiosque, tomando um refrigerante, quando um bêbado e um garçom saíram no tapa, com facas e tudo. Apartados os dois, o lugar esvaziou. Eu mesmo fui embora.

A polícia, porém, foi atrás do bêbado que, infelizmente, ia na mesma direção da minha casa. Detiveram-me; não resisti, mas levei um soco no abdômen assim mesmo. Fui levado de camburão à cela, onde fiquei até cerca de 1h30 da manhã. Quando me interrogaram, esclareci a situação e fui liberado. Tive de ir à pé até em casa, a uns três quilômetros. Para incrementar a aventura, tive de atravessar alguns mataguais bem hostis…

Hoje, moro na Asa Norte. Normalmente, encontro meus amigos em locais como o Mont Sion ou Água Doce. Felizmente, nesses lugares nunca ocorrem imbróglios como o que descrevi.

Mas… e se ocorresse?Racismo LLL

Pensei nisso ao ler isto aqui. Não é novidade que, mesmo após amplas melhoras, a sociedade brasileira é desigual. Também não se duvida muito que a repressão estatal foca nos menos favorecidos. Entretanto, o exemplo nunca foi tão claro. Estive dos dois lados da história e posso garantir: ser da classe social certa muda totalmente a maneira como se é tratado em sociedade.

Verdade seja dita, a situação é complicada. Primeiro, falo de uma conjectura: nunca vi uma briga no Mont Sion para dizer o que realmente aconteceria. Entretanto, o mais importante é que, ao contrário da confusão lá no Bico Doce, eu não teria medo da polícia. Por que não? O que mudou em mim – que em verdade era muito mais ortodoxo lá atrás – para que eu não precise mais tomar cuidado?

Uma mudança é: estou bem de vida. Praticamente não tenho patrimônio, mas meu padrão de vida é bem alto, comparado com o resto da população. Ao subir de classe, descobri vários códigos tácitos para transmitir a mensagem certa o policial.

Outra complexidade é que o Distrito Federal parece um paraíso de tolerância e igualdade quando comparado a outros lugares. Eu mesmo só sofri esse abuso, e nenhum outro. Ademais, as histórias de policiais “perseguindo” jovens de aparência abastada são comuns aqui, e as posso confirmar.

Entretanto, isso não é nem de longe sinal de tratamento igualitário. Primeiro, a maioria das ditas “perseguições” de ricos são apenas blitze; ademais, vários reclamões são pegos pelo bafômetro. Segundo, praticamente só pobres sofrem abuso policial: já vi bastante gente sendo detida sem motivo razoável em Taguatiga. Na Asa Norte, isto ocorre apenas a pessoas com roupas humildes. Testemunhei várias pessoas asperamente investigadas por terem sentado sob uma árvore para um lanche. O Distrito Federal não tem o conflito sangrento das favelas cariocas, e a impunidade dos ricos é, até onde vi, menor; o abuso, porém, ainda está reservado aos menos favorecidos.

Pois então, como escapei do abuso na maior parte das vezes lá atrás? Creio que sempre consegui transmitir os sinais corretos à época. Estudioso, pentecostal, “certinho” e não raro vestindo esporte fino ou roupa social, dificilmente seria o potencial bandido entre meus colegas com bermudas largas e camisetas dos Racionais MC. Se fui detido naquela noite, provavelmente foi por justamente não saber que sinais emitir naquele contexto, que nunca me ocorrera.

Será, então, que minha detenção foi justa? Ou, ao menos, plausível? cheguei a pensar. Afinal, eu “dei bobeira” e “estava no lugar errado”. Talvez; mas por que não seria justa ou plausível agora, que vou ao Água Doce? Se explodisse a confusão hoje, eu seria tão inocente quanto há anos atrás. Parece-me estranho que, por “ter dado bobeira”, ou “por estar no ‘lugar errado'” – isto é, transmitir o sinal errado – eu fosse culpado, mesmo que “só um pouquinho”. Do mesmo modo, me incomoda que meu colega taguatinguense esteja “um pouquinho errado” por usar a roupa que quiser.

Sei que sou favorecido por essa estrutura injusta. Tenho grande qualidade de vida. Sou tão colossalmente privilegiado que me formei em universidade pública. Pago bastante impostos, dizem – mas isso não prejudica meu padrão de vida. Agora, meu favorecimento ficou ainda mais claro: sou indubitavelmente um membro da elite* social brasileira. Mesmo sendo o mais pobre dos meus amigos, mesmo sem praticamente nenhum “alto contato”, sou elite, com seus problemas e suas responsabilidades.

Mas isto eu vou ter de deixar para outro post. Até mais!

* As pessoas têm medo do rótulo “elite”. Para mim, ser da elite é algo bom e desejável, que merece ser incentivado. Isso por si só merece um post. Só quis esclarecer que não estou usando o termpo pejorativamente.

O circo das ideias

domingo, 13 \13\UTC setembro \13\UTC 2009

Quando vejo debates, me assusto.

Não tenho mais paciência para defender ideias. Cada vez que uma minha opinião recebe uma crítica plausível, menos a aceito. Os debatedores defendem suas teses, mas, para mim, minhas teses devem se defender sozinhas. Nâo me identifico por minhas ideias e tento me desapegar das teorias às quais ainda tenha apreço.

Não sei se isso é bom, mas sei que traz paz de espírito. Talvez não seja a melhor das posturas…

Como tratar ideias

Como tratar ideias

…mas, enquanto penso sobre isto, assisto divertidamente ao circo das ideias.

Disciplina

sexta-feira, 21 \21\UTC agosto \21\UTC 2009
Le Parkour

Passement

Sempre fui CDF. Adorava ler e estudar. Frequentemente, era rotulado como o melhor aluno da escola. Sempre fui excessivamente caxias, e já fui bastante religioso. As pessoas me viam como alguém disciplinado e esforçado; eu era um exemplo a ser seguido.

Na verdade, nunca fui disciplinado. Tinha – e ainda tenho – dificuldade de agir contra minha vontade. Felizmente, sempre gostei de estudar e trabalhar, e nunca fui desordeiro. Entretanto, eu era bom estudante pela mesma razão que os meus colegas eram bons futebolistas nas aulas de Educação Física. Se tinha de fazer algo que não me motivava, porém, não conseguia me concentrar e acabava procrastinando. Se eu conseguisse cumprir meu dever, o resultado do meu trabalho saía ruim e eu ficava muito desgastado.

Não fazia sentido: as pessoas responsáveis que eu conhecia, essas pessoas não sofriam tanto, e trabalhavam bem. Havia algo ali, além de esforço. E, ao menos em parte, descobri o que era:

Disciplina, mais que esforço, é costume. Uma pessoa disciplinada se esforça, sim, mas tanto quanto um jogador se esforça em uma pelada. A motivação da pessoa disciplinada é intrísceca: por mais desagradável que seja a tarefa, ela a executa – ou melhor, a termina – com prazer. Se o desafio não estiver na tarefa, estará no próprio ato de cumprir a tarefa.

Este gosto não surge do nada. A pessoa disciplinada treina-se, mesmo que inconscientemente. A cada pequeno compromisso atendido, essas pessoas se tornam um pouco mais disciplinadas. E a cada responsabilidade assumida, fica mais fácil atender à próxima que chega.

A disciplina, pessoas, é o parkour das responsabilidades.

Eu e a UnB

quarta-feira, 27 \27\UTC maio \27\UTC 2009

Hoje, fazem sete anos que tive meu primeiro dia de aula na Universidade de Brasília. Eu já tinha ido à UnB duas vezes antes: no Ensino Médio participei de uma pesquisa lá, e fui lá também para fazer o registro como aluno. Entretanto, o dia 27 de maio de 2002 foi, para mim, o dia em que comecei a compreendero valor da UnB, e o papel dela na minha vida.

Jardim interno da Reitoria da UnB

Jardim interno da Reitoria da UnB

Nesse dia, houve a matrícula nas disciplinas e recepção aos calouros. Embora as aulas tenham começado praticamente no meio do ano, aquele ainda era o primeiro semestre de 2002: a greve de 2001 havia estendido o último semestre do ano anterior e o primeiro semestre foi postergado. Eu entrei no Instituto Central de Ciências, o prédio onde eu faria a matrícula, pela entrada sul – que fica consideravelmente longe do meu departamento. Nela, havia um cartazinho onde se lia algo como

Usada, mas ainda amada. Não, não é a sua mãe. Vendo prancheta de desenho

Esse cartazinho nunca mais saiu da minha cabeça.

Corredor da Ala B do ICC Norte

Corredor da Ala B do ICC Norte

O professor Marcelo Ladeira explicou como funcionava a matrícula, deu algumas sugestões (das quais não me recordo) aos alunos e começou a matriculá-los, um a um. Essa matrícula cara-a-cara era terrivelmente lenta e entediante – mas eu simplesmente não conseguia deixar de estar empolgado. Oras, eu estava realizando o meu sonho!

Jardim interno, na entrada norte

Jardim interno, na entrada norte

Depois de feita a matrícula, eu não me recordo bem o que fiz, mas acredito que eu tenha ido almoçar no Restaurante Universitário. No meu primeiro almoço, serviam músculo, com os acompanhamentos de sempre, e a fruta era banana. Era, se não a primeira vez, ao menos uma das primeiras vezes que eu comia fora de casa, excetuando eventos festivos e casas de parentes e amigos. A comida estava saborosíssima, e vi alguém cortando rodelas de bananas no prato. Eu, curioso, fiz o mesmo, e adquiri um estranho gosto por banana com feijão e pimenta.

Bambuzal, à frente da Biblioteca Central

Bambuzal, à frente da Biblioteca Central

Tenho uma lembrança que acredito ser desse mesmo dia. Após o almoço, eu saí a passear pela universidade, admirando os jardins internos do ICC. Nessa caminhada, encontrei com uma das calouras que vez a matrícula comigo. Ela era realmente muito bonita, de um tipo de beleza que eu não tinha visto pessoalmente antes: loira, de olhos azuis, simpática mas reservada, com modos de quem vinha de uma família rica e fora muito bem criada e educada. Eu a havia ajudado na matrícula, em algum momento, e ao encontrá-la novamente, nos saudamos. Eu soube depois que morara nos Estados Unidos durante um bom tempo e, creio, retornou para estudar na UnB. Eu nunca convivi muito com ela: não faria sentido, certamente não teríamos muito o que falar. Entretanto, até hoje a imagem dela me marca: era de uma das categorias de pessoas que só conheci ao entrar na universidade. Ela, naturalmente, se formou bem antes de mim, e não cheguei a vê-la depois de ela deixar a UnB.

Jardim central do ICC Sul

Jardim central do ICC Sul

Sou aluno da UnB há exatos sete anos. Em alguns dias, devo estar me formando. Nesse meio tempo – que foi muito mais longo do que deveria – comecei a trabalhar, reprovei várias matérias, estressei-me com diversas disciplinas, tive minha primeira namorada, fui até mesmo desligado da UnB – mas voltei, em outro curso, agora noturno. Foi uma história muito intensa, mas, ao contrário que praticamente todos que eu conheci, eu não estou cansado. Quase todos os alunos que vi se formarem, se formavam desgastados, irritados, buscando desesperadamente sair da universidade. Eu, porém, poderia continuar no meu curso por bem mais tempo, e só não o faço porque, bem, isso não faria sentido. Eu ainda amo a UnB como quando era calouro – ou até mais. Quase todos terminam o curso reclamando dos problemas da UnB (que não são poucos); eu termino meu curso com a mesma sensação de sonho do meu primeiro dia. Talvez eu continue lá, como mestrando ou em outro curso, talvez eu parta para outras possibilidades; o que importa é que saio feliz.

Jardim interno na Entrada Sul

Jardim interno na Entrada Sul

Consegui meu primeiro emprego devido à UnB, conheci meus melhores amigos lá. Incidentalmente, conheci minha primeira namorada, uma mulher maravilhosa, através da universidade. Trabalhei no LINF, um laboratório povoado por algumas das mentes mais curiosas e motivadas que conheci. Ademais, claro, tive uma formação acadêmica excelente, que só não foi melhor por minha própria displicência. Se há algo de que eu reclamo, é só de mim mesmo, que não estive à altura da universidade.

LINF: pouca ventilação, ar condicionado mal regulado e gênios trabalhando

LINF: pouca ventilação, ar condicionado mal regulado e gênios trabalhando

Meus pais não estão aqui para ver o resultado do seu trabalho – infelizmente, já não estavam naquele 27 de maio. Sou muito grato a eles por terem me preparado para isso. Não só a eles, mas a todos que me ajudaram, os professores do Ensino Fundamental e Mèdio, meus tios, minhas irmãs, tantas outras pessoas que até me escapam da memória. Sou grato também aos professores da UnB, servidores e alunos, que formam essa magnífica instituição. Graças a todos, eu não só tive aquele maravilhoso primeiro dia de aula, mas também tive os sete anos mais felizes da minha vida. E estou grato, também, à UnB, minha alma mater, por simplesmente estar lá, para mim, e para outros como eu.

Caminho para a L2 Norte, passando pela FT

Caminho para a L2 Norte, passando pela FT

Obrigado, UnB.


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