Archive for the ‘Confissão’ Category

Sobre uma moça siliconada

domingo, 8 \08\UTC agosto \08\UTC 2010

Vi na televisão a história uma moça que fizera vários implantes de silicone. Em minha opinião, ficou com seios grotescos, mas essa não é uma posição unânime, porque a moça fez sucesso com seu busto avantajado. De qualquer forma, em alguma das várias cirurgias a jovem acabou sofrendo uma infecção com alguma bactéria perigosa, colocando-a em risco de morte.

Muita gente comentaria sobre como, em certo sentido, a sociedade forçaria a mulher a fazer suas cirurgias. Não foi o pensei naquele momento: acredito e assumo que ela fez o que fez por vontade própria, provavelmente bem informada, assumindo os riscos. Também não quero comentar o programa, um freak show constrangedor, que apoiou as escolhas dela e, agora, explora a situação da moça. No final das contas, o programa provê apenas o que as pessoas – e a própria mulher – querem. O importante é que eu vi uma cena profundamente triste e humana.

Não foi a doença, em si, que me abalou. É triste mas muita gente fica doente, acontece. Não foi a própria moça que se submeteu ao risco? Já estou suficientemente insensível para isso. Não, realmente triste foi a entrevista: a moça comenta que está em uma situação difícil e que, quando sua saúde melhorar – um “quando” como um “se” eufemístico – irá reduzir os implantes, já queria fazer isso. De repente, ela se vira para o apresentador e, com a voz baixa e o olhar amedrontado, diz que espera que o Brasil continue amando-a, mesmo depois da redução.

Eu fiquei comovido ao ouvir isso. Ali havia muito medo, grande necessidade de afeto. Perguntei-me – ela fez as cirurgias para ser amada? Senti uma aflição e uma empatia estarrecedoras. Tive vontade de ir lá, abraçá-la e dizer que não seja por isso! estou aqui, eu a amo e agora melhor e pegue leve, ok?

Ademais, minha afetação intelectual se dissolveu. Eu sempre me achei muito culto e inteligente, mas já começara a me enjoar de pavonear minha intelectualidade: cansara de falar mal de novelas e programa de domingo a tarde, de funk e de tecnobrega. Ao ouvir a moça, isso se consolidou. Em um dos programas que mais detesto, vi uma pessoa, que tomaria como meu contrário, mostrando um estado tão humano que imediatamente desmontou minha arrogante caçoada.

Na verdade, isso não importa. Talvez eu devesse fazer alguma coisa. Sei lá, quem sabe mandar uma mensagem no perfil do Orkut da enferma, junto com montes de fãs que enviam clichês que dizem para confiar em Deus. Confesso que até para mim isso se parece com “descer muito”, mas a questão é justamente essa: eu nunca estive tão acima assim…

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Medo

segunda-feira, 1 \01\UTC março \01\UTC 2010

Frequentemente, tenho medo.

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Tempestade marítima com alguns botes e rochedos

Não há razão para o medo; digo, nenhuma razão específica. Apenas sinto a contração do estômago, os calafrios sob a pele e um tremor de pernas. Há, sim, razão para o medo, mas a razão está sempre lá: a possibilidade da escolha errada, a irreversibilidade das atitudes, o risco no próximo passo. Eu devia sentir medo sempre.

Navios jogados à costa em uma tempestade

Navios jogados à costa em uma tempestade

Entretanto, não preciso parar por medo. O medo geralmente não é sinal de perigo – mas sim de ignorância. Para além do medo, alcancei mais, aprendi mais, produzi mais. Quando temo o próximo passo, ou o primeiro passo, lembro que posso mais do que imagino, e que os riscos podem valer a pena; assim, mesmo com medo, avanço. A perna de minha decisão caminha, trêmula, para o destino obrigatório. Minha mente pesa de pavor e sorri, como o halterofilista após superar seus limites.

Pôr-do-sol

Pôr-do-sol

Afinal, nem este visitante não é tão ruim se o anfitrião se impuser.

A terceira metade da verdade

segunda-feira, 16 \16\UTC novembro \16\UTC 2009

Certa vez, disse que até achava a Veja é uma boa revista, embora com alguns problemas. Meira da Rocha respondeu que entre os problemas estava

“inventar coisas que não aconteceram e colocar na boca de entrevistados coisas que eles não disseram”

Até concordo. Não sei quantos casos de distorção de fatos ou entrevistas houve na Veja – sei que houve alguns, mas não quantos. Estes casos, porém, não mudaram minha opinião. Estranhei isso: por que não achei a revista ruim, dadas as informações falsas? Se mente, por que ainda acho a revista interessante?

Bem, para começar, uma mentira não desqualifica um periódico. Li recentemente um livro chamado A História Verdadeira, (True Story, no original), a história de um jornalista que pôs informações falsas em uma reportagem de The New York Times Magazine, dentre outras coisas. Oras, eu não creio que The New York Times Magazine seja uma má revista; o que ocorreu foi um incidente isolado.

Entretanto, dizem, na Veja, as distorções são muito mais comuns. Não sei se são, mas isto não me abala. Mesmo que a mentira seja uma constante em uma publicação, não me sinto obrigado a desprezá-la.

Não espero que me apresentem os fatos exata e imparcialmente; na verdade, isso sequer é possível. Entretanto, coleto rascunhos de narrativas e opiniões, mesmo as meia-verdades. Unindo e comparando o que descubro, consigo uma versão mais rica que as coletadas.

Por exemplo, considere a alteração do marco regulatório de Itaipu. Na Veja, uma reportagem falava que o “Paraguai não pôs um centavo na usina.” Fui pesquisar e, de fato, o Paraguai não investiu dinheiro na usina. A surpresa é que o Brasil também não: empréstimos pagaram a obra, e a empresa Itaipu Binacional é quem os amortiza. Isto não encerra o debate, mas muda um aspecto importante dele. E descobri isso após ler uma informação que pareceu-me bem incompleta.

Então, se os fatos, sendo minimamente corretos, não são tão relevantes, o que torna uma fonte boa? Primeiro, a capacidade de prover dados “minimamente corretos“. Se a fonte me dá uma base para o próximo passo, já é suficiente. A relevância dos temas também é importante: uma reportagem tendenciosa sobre uma polêmica vale para despertar-me para a situação. A defesa bem feita de certas posições é outro trunfo; neste caso, a Veja está até bem servida, com colunistas como Roberto Pompeu de Toledo.

Também valorizo a boa apuração dos fatos. Por isso mesmo, acho a revista CartaCapital, com todos os seus problemas, melhor que Veja. Já assinei a primeira e as reportagens eram cheias de boa pesquisa. Na Veja, as matérias são muito opinativas e pouco referenciadas. Leio mais a Veja porque ela está disponível nos mercados, mas a CartaCapital, ao menos quando eu a assinava (idos de 2004), fazia um trabalho investigativo bem melhor.

Entretanto, não preciso dessas reportagens; não a ponto de comprá-las. Como a Veja é disponível gratuitamente, suas reportagens são suficientes para despertar minha pesquisa. Que minta, distorça ou omita, não me afeta tanto: a revista é apenas mais um pedaço de minha investigação pessoal. Coitado, isso sim, de quem a usa como fonte única…

Enfim, não me perturbo com as acusações. Não preciso que me digam a verdade; prefiro receber cada meia-verdade, para montar minha observação. Mas, e você? O que você acha?

Até!

Quem é quem na briga do bar

segunda-feira, 12 \12\UTC outubro \12\UTC 2009

Certa vez, fui detido por engano; à época, tinha dezesseis anos e morava na periferia de Taguatinga. Estava em um quiosque, tomando um refrigerante, quando um bêbado e um garçom saíram no tapa, com facas e tudo. Apartados os dois, o lugar esvaziou. Eu mesmo fui embora.

A polícia, porém, foi atrás do bêbado que, infelizmente, ia na mesma direção da minha casa. Detiveram-me; não resisti, mas levei um soco no abdômen assim mesmo. Fui levado de camburão à cela, onde fiquei até cerca de 1h30 da manhã. Quando me interrogaram, esclareci a situação e fui liberado. Tive de ir à pé até em casa, a uns três quilômetros. Para incrementar a aventura, tive de atravessar alguns mataguais bem hostis…

Hoje, moro na Asa Norte. Normalmente, encontro meus amigos em locais como o Mont Sion ou Água Doce. Felizmente, nesses lugares nunca ocorrem imbróglios como o que descrevi.

Mas… e se ocorresse?Racismo LLL

Pensei nisso ao ler isto aqui. Não é novidade que, mesmo após amplas melhoras, a sociedade brasileira é desigual. Também não se duvida muito que a repressão estatal foca nos menos favorecidos. Entretanto, o exemplo nunca foi tão claro. Estive dos dois lados da história e posso garantir: ser da classe social certa muda totalmente a maneira como se é tratado em sociedade.

Verdade seja dita, a situação é complicada. Primeiro, falo de uma conjectura: nunca vi uma briga no Mont Sion para dizer o que realmente aconteceria. Entretanto, o mais importante é que, ao contrário da confusão lá no Bico Doce, eu não teria medo da polícia. Por que não? O que mudou em mim – que em verdade era muito mais ortodoxo lá atrás – para que eu não precise mais tomar cuidado?

Uma mudança é: estou bem de vida. Praticamente não tenho patrimônio, mas meu padrão de vida é bem alto, comparado com o resto da população. Ao subir de classe, descobri vários códigos tácitos para transmitir a mensagem certa o policial.

Outra complexidade é que o Distrito Federal parece um paraíso de tolerância e igualdade quando comparado a outros lugares. Eu mesmo só sofri esse abuso, e nenhum outro. Ademais, as histórias de policiais “perseguindo” jovens de aparência abastada são comuns aqui, e as posso confirmar.

Entretanto, isso não é nem de longe sinal de tratamento igualitário. Primeiro, a maioria das ditas “perseguições” de ricos são apenas blitze; ademais, vários reclamões são pegos pelo bafômetro. Segundo, praticamente só pobres sofrem abuso policial: já vi bastante gente sendo detida sem motivo razoável em Taguatiga. Na Asa Norte, isto ocorre apenas a pessoas com roupas humildes. Testemunhei várias pessoas asperamente investigadas por terem sentado sob uma árvore para um lanche. O Distrito Federal não tem o conflito sangrento das favelas cariocas, e a impunidade dos ricos é, até onde vi, menor; o abuso, porém, ainda está reservado aos menos favorecidos.

Pois então, como escapei do abuso na maior parte das vezes lá atrás? Creio que sempre consegui transmitir os sinais corretos à época. Estudioso, pentecostal, “certinho” e não raro vestindo esporte fino ou roupa social, dificilmente seria o potencial bandido entre meus colegas com bermudas largas e camisetas dos Racionais MC. Se fui detido naquela noite, provavelmente foi por justamente não saber que sinais emitir naquele contexto, que nunca me ocorrera.

Será, então, que minha detenção foi justa? Ou, ao menos, plausível? cheguei a pensar. Afinal, eu “dei bobeira” e “estava no lugar errado”. Talvez; mas por que não seria justa ou plausível agora, que vou ao Água Doce? Se explodisse a confusão hoje, eu seria tão inocente quanto há anos atrás. Parece-me estranho que, por “ter dado bobeira”, ou “por estar no ‘lugar errado'” – isto é, transmitir o sinal errado – eu fosse culpado, mesmo que “só um pouquinho”. Do mesmo modo, me incomoda que meu colega taguatinguense esteja “um pouquinho errado” por usar a roupa que quiser.

Sei que sou favorecido por essa estrutura injusta. Tenho grande qualidade de vida. Sou tão colossalmente privilegiado que me formei em universidade pública. Pago bastante impostos, dizem – mas isso não prejudica meu padrão de vida. Agora, meu favorecimento ficou ainda mais claro: sou indubitavelmente um membro da elite* social brasileira. Mesmo sendo o mais pobre dos meus amigos, mesmo sem praticamente nenhum “alto contato”, sou elite, com seus problemas e suas responsabilidades.

Mas isto eu vou ter de deixar para outro post. Até mais!

* As pessoas têm medo do rótulo “elite”. Para mim, ser da elite é algo bom e desejável, que merece ser incentivado. Isso por si só merece um post. Só quis esclarecer que não estou usando o termpo pejorativamente.

O circo das ideias

domingo, 13 \13\UTC setembro \13\UTC 2009

Quando vejo debates, me assusto.

Não tenho mais paciência para defender ideias. Cada vez que uma minha opinião recebe uma crítica plausível, menos a aceito. Os debatedores defendem suas teses, mas, para mim, minhas teses devem se defender sozinhas. Nâo me identifico por minhas ideias e tento me desapegar das teorias às quais ainda tenha apreço.

Não sei se isso é bom, mas sei que traz paz de espírito. Talvez não seja a melhor das posturas…

Como tratar ideias

Como tratar ideias

…mas, enquanto penso sobre isto, assisto divertidamente ao circo das ideias.

Disciplina

sexta-feira, 21 \21\UTC agosto \21\UTC 2009
Le Parkour

Passement

Sempre fui CDF. Adorava ler e estudar. Frequentemente, era rotulado como o melhor aluno da escola. Sempre fui excessivamente caxias, e já fui bastante religioso. As pessoas me viam como alguém disciplinado e esforçado; eu era um exemplo a ser seguido.

Na verdade, nunca fui disciplinado. Tinha – e ainda tenho – dificuldade de agir contra minha vontade. Felizmente, sempre gostei de estudar e trabalhar, e nunca fui desordeiro. Entretanto, eu era bom estudante pela mesma razão que os meus colegas eram bons futebolistas nas aulas de Educação Física. Se tinha de fazer algo que não me motivava, porém, não conseguia me concentrar e acabava procrastinando. Se eu conseguisse cumprir meu dever, o resultado do meu trabalho saía ruim e eu ficava muito desgastado.

Não fazia sentido: as pessoas responsáveis que eu conhecia, essas pessoas não sofriam tanto, e trabalhavam bem. Havia algo ali, além de esforço. E, ao menos em parte, descobri o que era:

Disciplina, mais que esforço, é costume. Uma pessoa disciplinada se esforça, sim, mas tanto quanto um jogador se esforça em uma pelada. A motivação da pessoa disciplinada é intrísceca: por mais desagradável que seja a tarefa, ela a executa – ou melhor, a termina – com prazer. Se o desafio não estiver na tarefa, estará no próprio ato de cumprir a tarefa.

Este gosto não surge do nada. A pessoa disciplinada treina-se, mesmo que inconscientemente. A cada pequeno compromisso atendido, essas pessoas se tornam um pouco mais disciplinadas. E a cada responsabilidade assumida, fica mais fácil atender à próxima que chega.

A disciplina, pessoas, é o parkour das responsabilidades.

Bizarro

segunda-feira, 25 \25\UTC maio \25\UTC 2009
Imagem de Bizarro

Ele parece elegante?

Descoberta do dia: “bizarro” significa – ou ao menos significava – “elegante, garboso, distinto“. Usar “bizarro” como sinônimo “extravagante, esquisito, grotesco, excêntrico” é um galicismo.

Esta é uma das razões dos meus atrasos no trabalho e nas aulas matinais. Não consigo resistir a procurar uma palavrinha no Houaiss nas manhãs, ao sair do banho…

Domingão

domingo, 1 \01\UTC março \01\UTC 2009
Percebes

Percebes

De vez em quando, um bom domingo, para mim, precisa apenas de minha conta na Wikipédia, meu Dicionário Houaiss e algum bicho esquisito sobre o qual falar.

Mas só de vez em quando. Pode me chamar para seus almoços de domingo sem problema ;)

O cão do ausente

quarta-feira, 13 \13\UTC agosto \13\UTC 2008

Você foi, para mim, tão importante

que eu não podia nem pensar em nada

sem lembrar de você, que estava em cada

pedaço do meu pensamento amante.

Separei um espaço tão gigante

da minha vida para a minha amada

que quase já não importava nada

mais para minha alma festejante.

Mas você foi-se, e a alma que sorria

minguou em compridíssima agonia

e o amor murchou de dor e de revolta.

Mas – ah! – o espaço ainda está guardado

no meu coração morto e consternado

qual cão que espera o dono que não volta…

2005

A maldição do soneto

quarta-feira, 7 \07\UTC maio \07\UTC 2008

Desesperadamente, linha a linha,

escrevo os versos desse meu poema

tentando aliviar a dor mesquinha

que violentamente a mim se algema,

pois cada verso é um guia que encaminha

um pouco dessa depressão extrema

ao mundo lá de fora e que da minha

cabeça tira um pouco do problema.

Verso a verso, eu expulso lentamente

dor, rancor, solidão, ódio, tristeza

da minha mente tristemente presa.

Mas de que vale, se da minha mente,

de tantos sofrimentos tão perversos,

só posso aliviar quatorze versos?


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