Archive for the ‘Temáticas’ Category

O Arqueólogo

sábado, 15 \15\UTC outubro \15\UTC 2011

Trecho de uma placa de barro claro com escrita cuneiforme em colunas

Nabucodonosor ajoelhado

observa tensamente sobre a terra

um bloquinho de argila já secado

– ou melhor, só a ponta. Desenterra

o resto da plaquinha com cuidado

pois sabe que este barro duro encerra,

em marcas já não tão bem definidas,

palavras há milênios esquecidas.

Com medo de causar-lhe dano, escava

a tábua, que lhe impinge um outro medo:

que poder tem o texto que gravava

o escriba muitos séculos mais cedo?

É uma maldição tremenda e brava

que está escrita ali? Ou um segredo

sombrio, poderoso e moribundo

numa língua banida deste mundo?

Seria a voz de Anu, o poderoso,

sobre a argila úmida prensada?

A dor de um Dumuzi lamurioso

morrendo pela Inana namorada?

Os versos dedicados pelo esposo

escriba para sua idosa amada

gravados meios displicentemente

durante um mais tranquilo expediente?

Talvez seja a história de Sargão

saindo lá de Acade, a sua terra,

levando seu império em direção

ao Mar Vermelho através da guerra,

criando um reino cuja imensidão

antes não teve igual em toda a Terra

– mas que era tão pequeno comparado

ao do rei que escavava o barro assado…

E assim, temente como os velhos sábios,

mas empolgado como uma criança,

Nabucodonosor abria os lábios

num riso de feliz desconfiança.

Que sensação feroz os alfarrábios

perdidos lhe causavam, que esperança!

Igual só sentiria o escavador

das placas de Nabucodonosor.

Fotografia preto e branco em tons de sépia. Hormuzd Rassam, utilizando turbante listrado, barba e bigode, reclinado sobre cadeira e vestido à moda otomana.

Primavera Árabe

sexta-feira, 3 \03\UTC junho \03\UTC 2011

Estou fazendo um curso sobre Relações Internacionais na plataforma Trilhas do Instituto Legislativo Brasileiro. Tive de participar de um fórum sobre a Primavera Árabe. O texto ficou grande, mas não sei se está bom e certamente está desatualizado. De qualquer forma, como deu um belo trabalho que quero publicar coisas aqui, ei-lo.

Possíveis causas

As manifestações populares contra governos autoritários no Oriente Médio árabe exemplificam bem as complexidades inerente ao estudo das relações internacionais. Mesmo sendo o Oriente Médio uma região de valor estratégico e, portanto, um objeto de inúmeros estudos pormenorizados, a chamada Primavera Árabe foi uma surpresa tanto para os governantes dos países quanto para os atores internacionais estrangeiros.

Um fator frequentemente apontado como causa dos eventos foi a disponibilidade de softwares online para redes sociais que permitiriam que os protestos fossem organizados. Embora pareça justo atribuir um papel considerável à Internet nas revoluções, seja como meio de comunicação dos organizadores, seja como fonte de informação política, eu me alinho aos analistas que julgam este papel exagerado. Em que pese todas as vantagens de se organizar uma revolução utilizando ferramentas modernas, já houve reviravoltas tão amplas sem tanto suporte tecnológico, como a queda do Comunismo na Europa Oriental e a Primavera dos Povos em 1848.

O combustível dos protestos, eu diria, é a existência de uma classe média jovem, bem educada e sem perspectivas. Assim, não é de se surpreender que a onda de mudança surgisse justamente na Tunísia, um país com população relativamente bem educada, e seguisse para o Egito. A faísca que estourou as revoltas, como sabemos, foi o suicídio do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi que explicitou a insatisfação popular que já existia, mas cuja repressão levou a se esconder. Sua atitude o tornou um mártir da causa.

As alianças com o Atlântico Norte e seu efeito sobre os regimes

Também é notável que as revoluções – e as quedas – tenham começado e obtido maior sucesso na Tunísia e no Egito. Os governantes depostos destes países mantinham boas relações – e até alianças – com as potências do Atlântico Norte. Há quem comente que, justamente por isto, estas nações tenham sido mais reticentes em esmagar as revoltas. Estados Unidos e Europa, assim, seriam o superego destes ditadores, impedindo que manifestem a violência vista em países fora deste eixo, como Síria e Líbia.Por outro lado, esta tese falha quando nos lembramos que o governo do Bahrein, importante aliado dos EUA onde fica a sede da frota americana no Oriente Médio, tem combatido os protestantes com violência não muito diversa da vista na Síria, inclusive com apoio de soldados sauditas.

É possível que o custo de se abrir mão do governo aliado no Bahrein fosse muito maior, na perspectiva das potências ocidentais, do que o custo de dispensar Hosni Mubarak, que fora até reticentemente apoiado pelos líderes estadunidenses. É compreensível: o Egito não possui um movimento fundamentalista forte, tem uma população diversificada e o Exército egípcio seria o fiel da balança a garantir estabilidade e um mínimo de laicidade ao estado; além disto, estrategicamente sua importância é grande mas menor que a de outros países na região. Nesse contexto, a queda de Hosni Mubarak é um evento sem grandes riscos. Além disto, não obstruir sua queda permitiria às potências ocidentais ressaltar sua imagem de defensores da democracia.

Já o Bahrein, além de ser estrategicamente bem localizado próximo do Irã, já possuir pesados investimentos militares dos americanos e ainda estar em área de forte influência Irã, tanto pela proximidade quanto por sua maioria populacional xiita, seria um aliado muito mais valioso para os Estados Unidos – a ponto da potência fazer vistas grossas ao abuso dos direitos humanos.

As perspectivas de Israel

Dos países não abalados diretamente pela Primavera Árabe, o mais afetado e mais apreensivo é Israel. A pequena potência do Oriente Médio viu um dos seus raros aliados na região, Mubarak, cair, e não sabe o que esperar do Egito. Sua preocupação é tanta que, no início das revoluções, seu primeiro-ministro chegou a criticar os Estados Unidos por não dar apoio ao ditador egípcio. Provavelmente Bahrein também é alvo de sua aflição, posto que a queda do governo atual aumentaria as possibilidades de influência do Irã.

Mesmo as dificuldades que Assad vêm passando podem ser negativas para a nação judaica. Embora a Síria esteja, em tese, em guerra com Israel, Assad se mostrou um governante relativamente transigente – houve avanços em negociações com Israel, e até início de negociações de paz mediadas por terceiros em seu governo. Mesmo que Assad não se mostre um aliado de Israel e seja até mesmo hostil, não se sabe quem poderá subir ao poder em seu lugar.

(Embora a Síria seja constantemente descrita como um aliado do Irã, o relacionamento do governo sírio com o país persa é muito mais conturbado. Algumas fontes que leio, como Gustavo Chacra, afirmam que interesses comuns podem levar as duas nações a ações conjuntas, mas a Síria tem seus interesses próprios, por vezes conflitantes com os dos aiatolás. Se assim não fosse, o relacionamento com Israel seria muito pior, e Assad não tentaria passar a imagem de governante laico moderado para o Ocidente. Com a queda do médico autocrata, a influência iraniana na Síria poderia ser bem maior – ou não, mas a política externa realista de Israel não parece estar disposta a fazer esta aposta).

O conflito na Líbia

Os levantes na Líbia, por sua vez, parecem seguir um padrão diferente. Ao contrário do que ocorrem no Egito, Tunísia etc. os protestos começaram aparentemente da mesma maneira que nestes países mas a repressão violentíssima de Kadafi acabou resultando em uma guerra civil. (Quando vi que os protestos “pularam” da Tunísia para o Egito, perguntei-me por que não passaram pelo país aí entre os dois – e depois me lembrei que era a Líbia, ainda mais repressiva. Ao saber que os protestos estouraram lá também, senti certa tristeza, porque sabia que não terminariam sem muito derramamento de sangue – e que os manifestantes teriam de terminar o que começaram, sob pena de morrerem todos).

A Líbia é um país um tanto diferente dos demais. Sua população é dividida em tribos, que se aliam ou se confrontam entre si. Quando as manifestações começaram, algumas tribos viram a oportunidade para tentar derrubar Kadafi, e por isto a situação degenerou em guerra civil.

As potências do Atlântico Norte ficaram um tanto confusas sobre o que fazer, até decidirem intervir. O posicionamento mais curioso, para mim, foi o da França de Sarkozy, que chegou ao ponto de reconhecer as forças rebeldes ainda fracas como governo legítimo da Líbia. A própria intervenção dos outros países, porém, levanta uma série de questões. Primeiramente, retiraria ela a legitimidade dos protestos? Uma intervenção estrangeira poderia servir como evidência para o discurso kadafista de ingerência internacional.

Ademais, se a intervenção é apenas para impedir crimes de guerra, os interventores não estarão alinhados aos rebeldes. E se os rebeldes forem derrotados, como os países que intervieram iriam lidar com Kadafi, que tem longo histórico de suporte a causas terroristas, inclusive várias não direta ou claramente alinhadas com seus interesses? Por sinal, eu chuto (e aqui o chute é pessoal, não li isso realmente) que é possível Kadafi chegar a um acordo com os rebeldes, o que pode trazer bastante dor de cabeça às nações que intervieram.

Enfim, o conflito líbio tem um perfil diferente das demais revoluções árabes, e tem causado bastante transtorno às potências ocidentais. Seu desfecho é o menos previsível de todos, pois podem ser vários.

Uma dica sobre investimentos

sexta-feira, 27 \27\UTC maio \27\UTC 2011

Por volta de 2007, cresceu explosivamente o interesse por investimentos, especialmente na Bolsa. O blog Dinheirama é mais ou menos desta época. Também foi por este período que Alessandro Martins, blogueiro já conhecido, iniciou seu blog sobre investimentos na bolsa. Estes foram só alguns dos sites que surgiram sobre o tema de investimentos e Bolsa. O assunto tomava as mesas de bar, todos queriam queriam participar do bolo e “ajudar o país”. Com a crise de 2008, a empolgação diminuiu tanto quanto as cotações dos papéis.

É uma pena. No Brasil, não há muito conhecimento e interesses sobre investimentos. As pessoas, no máxi apenas mo, têm uma poupança – até juntam, mas não aplicam. Entretanto, há investimentos com rentabilidade maior, alguns com riscos iguais ao da poupança. Com a propagação do medo, muitas pessoas acabaram fugindo destes bons investimentos ou nem tiveram tempo de conhecê-los.

De qualquer forma, mesmo a empolgação financeira de 2007 falhava em conquistar boa parte destas pessoas. As discussões focavam-se em investimentos arrojados, ou que dependiam de muito capital. Conversas, praticamente apenas sobre pôr dinheiro na Bolsa, sobre quais ações comprar, técnicas grafistas etc. Eventualmente, falava-se sobre outros investimentos e práticas financeiras, mas ainda assim eram fora da realidade de muita gente. Investimentos pareciam complicados, perigosos e caros. Muita gente, incluindo eu mesmo, ficou então apenas olhando de fora, tentando aprender com as observações antes de entramos no louco mundo dos investimentos.

Por isto, foi com surpresa e alegria que saí de uma palestra da XP Educação. Lá, eles me passaram muito mais confiança que qualquer outra instituição falando sobre o assunto. Mostraram, também, que há investimentos muito seguros e simples de entender. Ensinaram que era uma má ideia, digamos, deixar o dinheiro na poupança ao invés de aproveitar estes investimentos mais acessíveis. Como o palestrante que assisti falava a minha língua e entendia os aspectos emocionais e de renda dos vários perfis, me senti bastante confiante. Acabei fechando negócios com a corretora deles, XP Invesimentos, e investi em um dos seus fundos. Até agora, valeu muito a pena, tenho obtido ótimos rendimentos e sou sempre bem atendido e aconselhado.

Não posso pôr a mão no fogo pela empresa, naturalmente, mas pus meu dinheiro no fogo e não me arrependi. Se você tem interesse por investimentos mais rentáveis que poupança, ao menos assista uma das palestras do pessoal da XP. Eles possuem vários escritórios, eu fui neste de Brasília. Se as palestras forem tão boas quanto as que eu vi, você verá que investimentos financeiros são bem menos onimosos do que parecem, e que é fácil e compensador melhorar um pouco os seus. (Aliás, se você está tão mal financeiramente que nem pensa em investimentos, eles têm um curso sobre saúde financeira também. Uma conhecida fez e disse que é ótimo.)

Esta postagem, infelizmente, não é paga. Se alguém souber como resolver este pequeno problema técnico, aceitamos sugestões.

O protesto do ipê

domingo, 17 \17\UTC outubro \17\UTC 2010
Os ipês em Brasília, tão sisudos
que passam quase o ano todo mudos,
fiscalizam o clima da cidade
com sua verdolenga austeridade.
Sua seriedade é tão pesada
que, quando a chuva flui e é festejada
pelas plantas, que riem se florindo,
o ipê se fecha, só verde emitindo;
mas quando chega a seca e as folhas caem,
as folhas do ipê também se esvaem
mas mesmo assim caçoa da secada
flora numa dourada gargalhada.
Mas este ano a chuva permanece!
a árvore verdeja! a grama cresce!
e, como a seca não se apresenta,
floresce o arbusto tanto quanto aguenta.
Pobre ipê! Pois a festa continua
na época que já fora só sua;
e ele só consegue, bravo e belo,
protestar em um tom verde-amarelo.

Escrever para escrever

domingo, 5 \05\UTC setembro \05\UTC 2010
Atlas

Atlas carregando o globo

Adoro escrever algumas coisas. Por exemplo, gosto de escrever na Wikipédia. Também gosto de compor sonetos. Escrever textos técnicos também me agrada.

Por outro lado, escrever neste blog aqui não é tão prazeroso. Os textos são cansativos de compor, exigem muita pesquisa, muito esforço. Por vezes são sobre temas polêmicos, o que me obriga a tomar muito cuidado sobre o que falar. Geralmente, levo semanas, meses para escrever uma postagem maior.

Entretanto, esse enfado é uma das razões para manter este blog. Postar aqui só é cansativo porque me falta prática e coragem. Assim, escrever aqui é um exercício difícil que é praticado para se tornar fácil. Como a disciplina, só se aprende a escrever bem escrevendo, mesmo que mal. É preciso suar, mesmo quando se escreve, afinal.


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