Ajuda ao Haiti

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 por brandizzi

Dada a catástrofe que assolou o Haiti, várias instituições filantrópicas estão precisando de ajuda. O portal G1 lista algumas maneiras de ajudar. Esse link e esse outro (ambos em inglês) também listam maneiras de ajudar, embora sejam mais difíceis – tentei segui-las e não consegui. O segundo link vale, no mínimo, a leitura. Os dois links em inglês são recomendação do FP Passport.

Só tome especial cuidado para evitar cair em ciladas: só doe para organizações confiáveis.

De qualquer forma, vamos nos manter atentos. Vai haver muito mais o que fazer e mais oportunidades de cooperação após a urgência passar.

A terceira metade da verdade

segunda-feira, 16 de novembro de 2009 por brandizzi

Certa vez, disse que até achava a Veja é uma boa revista, embora com alguns problemas. Meira da Rocha respondeu que entre os problemas estava

“inventar coisas que não aconteceram e colocar na boca de entrevistados coisas que eles não disseram”

Até concordo. Não sei quantos casos de distorção de fatos ou entrevistas houve na Veja – sei que houve alguns, mas não quantos. Estes casos, porém, não mudaram minha opinião. Estranhei isso: por que não achei a revista ruim, dadas as informações falsas? Se mente, por que ainda acho a revista interessante?

Bem, para começar, uma mentira não desqualifica um periódico. Li recentemente um livro chamado A História Verdadeira, (True Story, no original), a história de um jornalista que pôs informações falsas em uma reportagem de The New York Times Magazine, dentre outras coisas. Oras, eu não creio que The New York Times Magazine seja uma má revista; o que ocorreu foi um incidente isolado.

Entretanto, dizem, na Veja, as distorções são muito mais comuns. Não sei se são, mas isto não me abala. Mesmo que a mentira seja uma constante em uma publicação, não me sinto obrigado a desprezá-la.

Não espero que me apresentem os fatos exata e imparcialmente; na verdade, isso sequer é possível. Entretanto, coleto rascunhos de narrativas e opiniões, mesmo as meia-verdades. Unindo e comparando o que descubro, consigo uma versão mais rica que as coletadas.

Por exemplo, considere a alteração do marco regulatório de Itaipu. Na Veja, uma reportagem falava que o “Paraguai não pôs um centavo na usina.” Fui pesquisar e, de fato, o Paraguai não investiu dinheiro na usina. A surpresa é que o Brasil também não: empréstimos pagaram a obra, e a empresa Itaipu Binacional é quem os amortiza. Isto não encerra o debate, mas muda um aspecto importante dele. E descobri isso após ler uma informação que pareceu-me bem incompleta.

Então, se os fatos, sendo minimamente corretos, não são tão relevantes, o que torna uma fonte boa? Primeiro, a capacidade de prover dados “minimamente corretos“. Se a fonte me dá uma base para o próximo passo, já é suficiente. A relevância dos temas também é importante: uma reportagem tendenciosa sobre uma polêmica vale para despertar-me para a situação. A defesa bem feita de certas posições é outro trunfo; neste caso, a Veja está até bem servida, com colunistas como Roberto Pompeu de Toledo.

Também valorizo a boa apuração dos fatos. Por isso mesmo, acho a revista CartaCapital, com todos os seus problemas, melhor que Veja. Já assinei a primeira e as reportagens eram cheias de boa pesquisa. Na Veja, as matérias são muito opinativas e pouco referenciadas. Leio mais a Veja porque ela está disponível nos mercados, mas a CartaCapital, ao menos quando eu a assinava (idos de 2004), fazia um trabalho investigativo bem melhor.

Entretanto, não preciso dessas reportagens; não a ponto de comprá-las. Como a Veja é disponível gratuitamente, suas reportagens são suficientes para despertar minha pesquisa. Que minta, distorça ou omita, não me afeta tanto: a revista é apenas mais um pedaço de minha investigação pessoal. Coitado, isso sim, de quem a usa como fonte única…

Enfim, não me perturbo com as acusações. Não preciso que me digam a verdade; prefiro receber cada meia-verdade, para montar minha observação. Mas, e você? O que você acha?

Até!

Tiktaalik (your inner fish)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009 por brandizzi

Já que sou desorganizado e não escrevo um post decente, eis aí algo… lindo:

A música é obra de The Indoorfins. Quanto ao Tiktaalik, é uma das grandes descobertas da paleontologia. Dê uma lidinha sobre ele, é fascinante!

Hermes Aquino e a nuvem passageira

sexta-feira, 16 de outubro de 2009 por brandizzi

Eu trabalho no anexo de um ministério. Por vezes, tenho de ir para o prédio principal do ministério, passando por um corredor. Curiosamente, toda vez que passo pelo corredor, ouço a música Nuvem Passageira, de Hermes Aquino. Isso é perturbador…

A despeito disso, adoro essa canção. A letra, em especial, é um poema muito interessante. Achei a idéia de caçoar da própria efemeridae tão ousada quanto bem implementada.

Eu sou nuvem passageira que com o vento se vai,
eu sou como um cristal bonito que se quebra quando cai
Não adianta escrever meu nome numa pedra pois esta pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo sou um castelo de areia na beira do mar
A lua cheia convida para um longo beijo mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito e a namorada analisada por sobre o divã
Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber do que fazer, vou me matar
Eu vou deixar um dia a vida e a minha energia sou um castelo de areia na beira do mar…

Quem é quem na briga do bar

segunda-feira, 12 de outubro de 2009 por brandizzi

Certa vez, fui detido por engano; à época, tinha dezesseis anos e morava na periferia de Taguatinga. Estava em um quiosque, tomando um refrigerante, quando um bêbado e um garçom saíram no tapa, com facas e tudo. Apartados os dois, o lugar esvaziou. Eu mesmo fui embora.

A polícia, porém, foi atrás do bêbado que, infelizmente, ia na mesma direção da minha casa. Detiveram-me; não resisti, mas levei um soco no abdômen assim mesmo. Fui levado de camburão à cela, onde fiquei até cerca de 1h30 da manhã. Quando me interrogaram, esclareci a situação e fui liberado. Tive de ir à pé até em casa, a uns três quilômetros. Para incrementar a aventura, tive de atravessar alguns mataguais bem hostis…

Hoje, moro na Asa Norte. Normalmente, encontro meus amigos em locais como o Mont Sion ou Água Doce. Felizmente, nesses lugares nunca ocorrem imbróglios como o que descrevi.

Mas… e se ocorresse?Racismo LLL

Pensei nisso ao ler isto aqui. Não é novidade que, mesmo após amplas melhoras, a sociedade brasileira é desigual. Também não se duvida muito que a repressão estatal foca nos menos favorecidos. Entretanto, o exemplo nunca foi tão claro. Estive dos dois lados da história e posso garantir: ser da classe social certa muda totalmente a maneira como se é tratado em sociedade.

Verdade seja dita, a situação é complicada. Primeiro, falo de uma conjectura: nunca vi uma briga no Mont Sion para dizer o que realmente aconteceria. Entretanto, o mais importante é que, ao contrário da confusão lá no Bico Doce, eu não teria medo da polícia. Por que não? O que mudou em mim – que em verdade era muito mais ortodoxo lá atrás – para que eu não precise mais tomar cuidado?

Uma mudança é: estou bem de vida. Praticamente não tenho patrimônio, mas meu padrão de vida é bem alto, comparado com o resto da população. Ao subir de classe, descobri vários códigos tácitos para transmitir a mensagem certa o policial.

Outra complexidade é que o Distrito Federal parece um paraíso de tolerância e igualdade quando comparado a outros lugares. Eu mesmo só sofri esse abuso, e nenhum outro. Ademais, as histórias de policiais “perseguindo” jovens de aparência abastada são comuns aqui, e as posso confirmar.

Entretanto, isso não é nem de longe sinal de tratamento igualitário. Primeiro, a maioria das ditas “perseguições” de ricos são apenas blitze; ademais, vários reclamões são pegos pelo bafômetro. Segundo, praticamente só pobres sofrem abuso policial: já vi bastante gente sendo detida sem motivo razoável em Taguatiga. Na Asa Norte, isto ocorre apenas a pessoas com roupas humildes. Testemunhei várias pessoas asperamente investigadas por terem sentado sob uma árvore para um lanche. O Distrito Federal não tem o conflito sangrento das favelas cariocas, e a impunidade dos ricos é, até onde vi, menor; o abuso, porém, ainda está reservado aos menos favorecidos.

Pois então, como escapei do abuso na maior parte das vezes lá atrás? Creio que sempre consegui transmitir os sinais corretos à época. Estudioso, pentecostal, “certinho” e não raro vestindo esporte fino ou roupa social, dificilmente seria o potencial bandido entre meus colegas com bermudas largas e camisetas dos Racionais MC. Se fui detido naquela noite, provavelmente foi por justamente não saber que sinais emitir naquele contexto, que nunca me ocorrera.

Será, então, que minha detenção foi justa? Ou, ao menos, plausível? cheguei a pensar. Afinal, eu “dei bobeira” e “estava no lugar errado”. Talvez; mas por que não seria justa ou plausível agora, que vou ao Água Doce? Se explodisse a confusão hoje, eu seria tão inocente quanto há anos atrás. Parece-me estranho que, por “ter dado bobeira”, ou “por estar no ‘lugar errado’” – isto é, transmitir o sinal errado – eu fosse culpado, mesmo que “só um pouquinho”. Do mesmo modo, me incomoda que meu colega taguatinguense esteja “um pouquinho errado” por usar a roupa que quiser.

Sei que sou favorecido por essa estrutura injusta. Tenho grande qualidade de vida. Sou tão colossalmente privilegiado que me formei em universidade pública. Pago bastante impostos, dizem – mas isso não prejudica meu padrão de vida. Agora, meu favorecimento ficou ainda mais claro: sou indubitavelmente um membro da elite* social brasileira. Mesmo sendo o mais pobre dos meus amigos, mesmo sem praticamente nenhum “alto contato”, sou elite, com seus problemas e suas responsabilidades.

Mas isto eu vou ter de deixar para outro post. Até mais!

* As pessoas têm medo do rótulo “elite”. Para mim, ser da elite é algo bom e desejável, que merece ser incentivado. Isso por si só merece um post. Só quis esclarecer que não estou usando o termpo pejorativamente.

Racismo no LLL

sábado, 26 de setembro de 2009 por brandizzi

Racismo LLLA série sobre raça apresentanda por Alex Castro (o autor desse e desse livro) está ótima. Nela, disserta-se sobre o racismo no Brasil. Tenho aprendido muito, e creio que você também aprenderia.

Não se deixe assustar pelo tema: aproveite a oportunidade para refletir. Tampouco espere doutrinação: o debate está rico e diverso, e os comentários – incluindo os discordantes – são parte importante da série.

Aliás, não é preciso mudar de ideias para aproveitar os posts. Eu, por exemplo, discordo da maior parte das “soluções” propostas pelo autor. Mesmo assim, compreendo, graças à série, bem mais sobre o racismo no Brasil. E, sim, o Brasil é um país racista.

Praticamente não comento lá: falta-me base e ganho mais lendo os textos. Espero ter tempo e energia para escrever algo relevante sobre o assunto em breve, porém.

Enfim, espero você lá. O tema pode ser diferente, mas o Liberal, Libertário, Libertino continua nos mostrando horizontes surpreendentes.

Apocalypto

quinta-feira, 24 de setembro de 2009 por brandizzi
Cartaz de Apocalypto

Cartaz de Apocalypto

Depois de anos sendo o cara esquisito das rodas de amigos, resolvi adotar hobbies menos exóticos: fui a uma locadora perto de casa e abri uma conta. Para estrear minha vida cinéfila, escolhi Apocalypto. Estava querendo ver o filme há um bom tempo – e minhas especitativas foram satisfeitas.

Apocalypto é um filme visual. As paisagens conseguiam transmitir todas as sensações: medo, coragem, destruição, manipulação. As cenas eram não só expressivas, mas também belíssimas e bem feitas. Algumas decisões polêmicas – como misturar aspectos culturais de diversas épocas da cultura maia – foram tomadas para deixar o filme mais exuberante; o objetivo foi alcançado.

O enredo não deve nada ao visual. A história do caçador perseguido pelos soldados do império é fascinante. O filme consegue prender a atenção. Felizmente, faz isso sem exageros: há muito drama e muita ação, mas não mais do que deveria haver. Quem tivesse assistido o ótimo The Passion of the Christ poderia esperar um filme muito carregado, mas não encontrará isso: o pesado drama foi uma ótima escolha em  The Passion of the Christ, mas Apocalypto é outra categoria de filme. Ademais, uma história sobre pré-colombianos dificilmente encontraria backgroud suficiente nos espectadores para emocioná-los tanto quanto a Paixão de Cristo poderia fazer. Se houvesse tanto drama, o filme seria apenas meloso, como são, por exemplo, os filmes de Spielberg.

Os personagens não deixam nada a desejar. Suas motivações, atos, opiniões são convincentes. O espectador sente empatia por eles. Como o filme não possui europeus, eles já não poderiam ser vilões esquemáticos (como temia-se). Os maias são antagonistas, mas definitivamente não são personagens superficiais: seus dramas, atos e opiniões também geram empatia.

Como em The Passion of the Christ, o aspecto mais ousado do filme é o idioma. Apocalypto é falado no dialeto iucateque de maia. A escolha foi muito boa: embora não se possa entender as falas, o idioma cria clima também. Não tive esta sensação (leia todo). Talvez porque tenha sido um filme feito por anglófonos: os atores pareciam falar maia com uma entonação inglesa. É verdade que a legenda distraía o espectador, que via menos dos cenários. Afora isso, porém, foi uma escolha interessante e ousada, e achei que deu certo.

Acredito, porém, que erraram um pouco a mão ao falar da religião maia. O filme deixa claro que a religião maia é um instrumento de controle do povo – especialmente dados os problemas que os maias estavam encarando e viriam a enfrentar. A tese em si, não me incomodou; pelo contrário, foi uma ideia boa. Entretanto, ficou explícito demais. Acredito que, se tivessem apresentado com sutileza, ficaria mais elegante.

O filme teve também suas polêmicas. Por exemplo, alguns historiadores afirmam que os maias não eram tão afeitos a sacrifícios humanos: este seria um aspecto da cultura asteca. Richard Hansen, o especialista que prestou consultoria à produção, responde que, durante o período, houve uma grande influência da cultura asteca sobre os maias. De qualquer forma, segundo alguns pesquisadores, os imolados eram geralmente membros da elite, não escravos – que, por sua vez, talvez não fossem tão comuns.

Houve quem visse no filme uma defesa da colonização espanhola. Segundo estes, o filme transmitiria a idéia de que os maias eram tão selvagens que precisavam do socorro europeu. Sinceramente, isto não faz sentido: em nenhum momento os europeus eram apresentados como salvadores. Pelo contrário: durante todo o filme, vê-se sinais claros de que uma maldição se aproximaria – e esta maldição eram os conquistadores.

Sumarizando, o filme é muito bom. Lamentavelmente, não o vi no cinema: um filme visualmente espetacular, como esse, merece ser visto na telona. Recomendo, porém, que ainda assim o assista: é um dos melhores filmes que já vi.

O circo das ideias

domingo, 13 de setembro de 2009 por brandizzi

Quando vejo debates, me assusto.

Não tenho mais paciência para defender ideias. Cada vez que uma minha opinião recebe uma crítica plausível, menos a aceito. Os debatedores defendem suas teses, mas, para mim, minhas teses devem se defender sozinhas. Nâo me identifico por minhas ideias e tento me desapegar das teorias às quais ainda tenha apreço.

Não sei se isso é bom, mas sei que traz paz de espírito. Talvez não seja a melhor das posturas…

Como tratar ideias

Como tratar ideias

…mas, enquanto penso sobre isto, assisto divertidamente ao circo das ideias.

Mulher de um Homem Só

sábado, 5 de setembro de 2009 por brandizzi

Alex Castro (o autor de Radical Rebelde Revolucionário) escreveu Mulher de um Homem Só há muito tempo. Tentou lançar o romance através de editoras convencionais. Como não conseguiu, vendeu o livro antes de imprimir, para financiar a primeira edição. Eu, leitor tiete do Liberal Libertário Libertino, comprei um desses volumes.

Mulher de um Homem Só

Mulher de um Homem Só

Para ser honesto, não esperava um livro bom. Nunca gostei muito da ficção de Alex Castro. Onde Perdemos Tudo, seu livro de contos, é até bem escrito, tecnicamente bom, mas não me impressionou, embora tenha passagens divertidas. Ademais, as amostras de Mulher de um Homem Só também não me atraíram.

Felizmente, o livro me surpreendeu de maneira positiva.

Após terminá-lo, notei como o livro é ágil. Li-o dois dias na primeira vez; na segunda, três dias, por falta de tempo. O livro é ágil porque o texto é curto, mas também porque a prosa é direta e clara. A história vai e vem, mas o autor foi hábil: não nos perdemos na leitura. O livro segue uma cronologia psicológica, mas que não trava o leitor.

Mulher de um Homem Só não parece um romance. Ao terminar de lê-lo, senti como se tivesse lido um conto; certamente, seria mais fácil classificá-lo como uma novela. Isto não se deve ao tamanho: a narrativa se refere a um período curto, e o tópico é bastante definido. Isto diverge um pouco da minha imagem de romances, mais próxima de Cem Anos de Solidão ou Grande Sertão: Veredas.

De imediato, a história me lembrou Wuthering Heights e Crônica da Casa Assassinada, que têm como protagonistas mulheres com níveis variáveis de possessividade e ciúmes. Mulher de um Homem Só não é um livro tão extremo quanto estes dois, porém. Esta “baixa intensidade”, por outro lado, remete a outro estilo, o de Clarice Lispector. O tom de monólogo, a liberdade em passear pela história e as sutis sugestões no texto lembram muito a autora.

Uma passagem surpreendente do livro foi o episódio de Libeca. Tive a sensação de ler Pedro Bandeira: de repente, percebo um tom próximo da literatura infantojuvenil dos anos 80. Não que seja idêntico: é como se eu estivesse lendo o livro de um dos leitores daquelas histórias. Procurei mais desses trechos no livro e não encontrei, mas lembrei de trechos de Onde Perdemos Tudo que tinham esse aspecto. Esta foi minha impressão e, mesmo que não se fundamente, me fez perguntar se há pesquisas sobre a influência da literatura infantojuvenil sobre os escritores.

Um ponto polêmico do livro foi a onisciência da narradora. Eu gostei, me fazia suspeitar da narrativa. Entretanto, algo que estranhei muito foi um aparente conhecimento do futuro: dois parágrafos em parênteses parecem descrever eventos que vão acontecer. Como um experimento literário, seria naturalmente válido, mas destoam do tempo do livro, que parece descrever o passado próximo. O principal problema é que esses parágrafos não acrescentam – ao menos para minha leitura não muito hábil – muito ao livro, parecem desnecessários. Certamente, serviram para acrescentar mistério à personagem, mas ainda não sei se gostei disto.

Por fim, destaco a qualidade do final. Muitos romancistas novatos aceleram o passo para terminar o livro. É o caso, por exemplo, do romance EQM. Isto não acontece em Mulher de um Homem Só. O livro tem um final brusco, uma solução que arrisca se tornar uma saída fácil, mas fica claro que a narração foi pensada para chegar a esse ponto. O romance termina com um clímax muito bem pensado.

Para mim, o livro é bem mais maduro que Onde Perdemos Tudo. No livro de contos, tinha-se a sensação de ler histórias da vida do autor. Quando Alex Castro sai de si mesmo e tenta ser Carla, o resultado é mais interessante. Neste caso, ficou claro que  o autor fez bem em não escrever sobre si mesmo.

Mulher de um Homem Só não é genial, mas é um bom livro que vale a pena comprar e ler. Recomendo especialmente às mulheres, que parecem ter gostado muito do livro. Para mim, o saldo foi positivo: já fiquei mais interessado no ficcionista Alex Castro.

http://www.interney.net/blogs/lll/2009/07/18/o_bom_da_ficcao_e_poder_ser_outra_pessoa/

James Harden-Hickey e a Ilha da Trindade

sexta-feira, 28 de agosto de 2009 por brandizzi

A Ilha de Trindade é uma pequena ilha vulcânica no Oceano Atlântico, a maior do arquipélago de Trindade e Martim Vaz. Território brasileiro, faz parte parte do município de Vitória, a capital do Espírito Santo. Embora não tenha habitantes permanentes, sedia o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, mantido pela Marinha do Brasil.

Além disso, a Ilha de Trindade foi o palco da maior cartada de James Harden-Hickey.

Fotografia da Ilha da Trindade

Fotografia da Ilha da Trindade

James Harden-Hickey foi um franco-estadunidense com gosto por aventura. Nascido em 1854, em São Francisco, Califórnia, mudou-se ainda criança para Paris. O ambiente esfuziante de Paris fascinou o jovem James, que adquiriu gosto pela pompa. Foi aluno dos jesuítas da Bélgica, estudou Direito na Universidade de Leipzig e formou-se, em 1875, na Academia Militar de Saint-Cyr. Alguns anos depois, casou-se com a Condessa de Saint-Pery, com quem teve duas crianças. Era um grande espadachim e escrevia romances.

Monarquista ardoroso, meteu-se em diversas confusões na França da Terceira República. Entre 1876 e 1880, já havia publicado mais de dez romances, todos monarquistas e antidemocráticos. Por seu apoio à Igreja, ganhou o título de barão do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1878, tornou-se editor do Triboulet, um popular jornal antirrepublicano que lhe rendeu vários duelos, processos e multas. Em 1887, porém, o jornal fecha, por falta de vrba.

Nessa época, James havia mudado. Divorciou-se da condessa, afastou-se do catolicismo e se dedicou ao budismo e à teosofia. Viajou pela Índia e Nepal, aprendeu sânscrito e se casou com uma filha de Henry Flagler, um dos donos da Standard Oil. Sua maior empreitada, porém, viria um pouco depois:

Em 1893, James Harden-Hickey decidiu se tornar James I, Príncipe de Trindade.

Harden-Hickey planejava colonizar a Ilha de Trindade e torná-la uma nação soberana. Trindade, a nação, seria uma ditadura militar governada por ele mesmo.  Em 1893, o jornal New York Tribune publicou uma reportagem de capa sobre o novo príncipe.

Bandeira do Principado de Trindade

Bandeira do Principado de Trindade

James seguia trabalhando: desenhou selos, uma bandeira e um brasão. Comprou uma escuna para trazer colonizadores. Abriu um escritório consular em Nova Iorque e até emitiu títulos de governo do novo estado.

Em 1895, porém, tropas inglesas tomaram a ilha. A Inglaterra planejava construir um cabo subterrâneo até o Brasil e usaria a ilha como posto. A ilha passou a ser disputada por Brasil e Inglaterra. James tentou ainda “lembrar” a todos de quem era o real soberano da ilha: seu secretário de Estado, Conde de la Boissiere, começou a agir. Entrou em contato com o secretário de Estado estadunidense, Richard Olney, a quem pediu o reconhecimento da soberania de Trindade. Olney então encaminhou a carta do conde aos jornais novaiorquinos, que se esbaldaram: o conde tornou-se motivo de piada.

Brasão de armas do Principado de Trindade

Brasão de armas do Principado de Trindade

Diz-se que Harden-Hickey ficou tão irritado que apresentou a seu sogro um plano para invadir a Inglaterra através da Irlanda. Obviamente, Flagler rejeitou a idéia. O “prícipe sem país” ainda tentou obter recuros vendendo um rancho que possuía, no México, mas não conseguiu angariar fundos suficientes.

No final, a Ilha de Trindade ficou sobre domínio do Brasil. James Harden-Hickey, defensor da eutanásia, entrou em depressão e, em 1898, cometeu suicídio em um hotel em El Paso, Texas, através de uma overdose de morfina. No seu espólio, havia uma carta de despedida para sua esposa e lembranças de suas aventuras, incluindo a coroa que havia encomendado.

James Harden-Hickey foi um desses personagens inacreditáveis, cuja história é intensa e tragicômica, bem ao estilo do século XIX. Se quiser saber mais sobre tal figura, veja este artigo.